Prezado leitor
As coisas poderiam estar transitando em órbita normal, regular, mas não estão. Por onde quer que ande, encontrará infinitas controvérsias, desprezíveis. No entanto, a depender de como olhe, poderá encontrar casos dignos da apreciação humana.
Hoje, 1 de abril de 2010, nasce Retratos Avessos para mostrar a verdadeira face e também a outra cara de tantas histórias possíveis de serem encontradas pela Bahia e pelo Brasil. Nada por aqui é normal. O banal tem uma outra existência, um novo sentido, construído a partir de um modo diferente de olhar.
Retratos Avessos tem um lado, uma posição política e social. Já nasce com uma identidade. Preocupamo-nos com o desenvolvimento social, econômico e intelectual das pessoas. Defendemos a bandeira da democracia e, assim, assinamos embaixo das ações focadas nesse propósito. Estamos no campo e na cidade, na capital e no interior. Buscaremos o popular, o simples. Vislumbramos a possibilidade do debate sadio, a participação democrática da sociedade nos debates e na construção das políticas públicas e, finalmente, lutamos pela garantia dos direitos humanos, que são básicos.
A ideia de montar um espaço como este vem se inquietando na memória há algum tempo. Restava, talvez, um pouco de amadurecimento da metodologia a ser aplicada, as concepções a serem adotadas. As motivações vêm de todas as partes: viagens, leituras, trabalho, faculdade, amigos... Contudo, há um ser nesse mundo que, assim como eu, nunca se cansa de acreditar na possibilidade de construção de um mundo mais igual, mais humano. Por isso, sinto-me extremamente honrado em dedicar este trabalho a Lívia Fauaze, uma mulher de caráter, de personalidade inigualável, responsável por estimular a germinação dessa semente.
E para que essa semente cresça e produza bons frutos, o primeiro texto de Retratos Avessos traz uma rápida reflexão sobre o nosso lugar de olhar, muitas vezes preconceituoso e estigmatizado. Do lado de lá. Ou de cá mostra que a distância que separa ricos e pobres, negros e brancos poderia ser menor, a começar por um simples detalhe: o modo de olhar.
Espero que Retratos Avessos seja capaz de lhe proporcionar uma forma diferente de olhar as coisas, que ele possa contribuir para a construção de um novo mundo, melhor.
Josevaldo Campos, editor
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Do lado de lá. Ou de cá
Hoje, em meio a tantas atribuições e pensamentos noturnos, dei-me o luxo de parar para pensar. São inquietações antigas, algumas, inclusive, devem existir há séculos.
Volto um pouco na rotina corrida deste último dia. Demoro até chegar onde gostaria. É do outro lado da cidade, mas ainda estou sobre as terras da capital dessa majestosa baía de Todos os Santos. Entro no ônibus, depois de uma espera angustiante. Na próxima parada uma multidão aguarda por aquela que pode ser a última oportunidade de chegar em casa. Depois de dez minutos parados, seguimos. Tão logo passasse uma hora, chegaríamos, enfim, do outro lado da cidade.
Uma composição de minutos e segundos divide a cidade em dois extremos geográficos, em duas realidades distintas, desiguais. De que lado estou? De que lado você está? Do lado de lá vejo um emaranhado de cores, sem vida, que tentam insistentemente alcançar o céu. Do lado de cá, tons de cinza colorem uma aparente vontade de sobreviver num espaço milimétrico, em condições precárias. Para se chegar aqui é a mesma distância para se chegar lá, embora seja mais distante, impossível e improvável se chegar aqui. De um lado, os abastados, do outro, os castigados. De onde escrevo agora é um lugar totalmente desconhecido, de onde, certamente, você que mora lá, não sabe. Nós, do lado de cá, conhecemos muito bem vocês, do lado de lá. E a recíproca não é verdadeira. O que vocês, de lá, têm, a gente sabe e imagina. Os que temos por aqui vocês desconhecem e ignoram, embora seja a mesma cidade e a mesma distância. Seja qual for o lado que você está, estamos no mesmo lugar. Assim é a Salvador, desigual, de quase todos os santos, não fosse um detalhe importante: a forma e o lugar do olhar. Quem está do lado de lá ou de cá, na verdade, não é possível de se definir. A praia do Porto da Barra está para Salvador assim como a de Base Naval está para a baía, com ou sem santos. Do lado de cá ou de lá depende unicamente do seu olhar.
Volto um pouco na rotina corrida deste último dia. Demoro até chegar onde gostaria. É do outro lado da cidade, mas ainda estou sobre as terras da capital dessa majestosa baía de Todos os Santos. Entro no ônibus, depois de uma espera angustiante. Na próxima parada uma multidão aguarda por aquela que pode ser a última oportunidade de chegar em casa. Depois de dez minutos parados, seguimos. Tão logo passasse uma hora, chegaríamos, enfim, do outro lado da cidade.
Uma composição de minutos e segundos divide a cidade em dois extremos geográficos, em duas realidades distintas, desiguais. De que lado estou? De que lado você está? Do lado de lá vejo um emaranhado de cores, sem vida, que tentam insistentemente alcançar o céu. Do lado de cá, tons de cinza colorem uma aparente vontade de sobreviver num espaço milimétrico, em condições precárias. Para se chegar aqui é a mesma distância para se chegar lá, embora seja mais distante, impossível e improvável se chegar aqui. De um lado, os abastados, do outro, os castigados. De onde escrevo agora é um lugar totalmente desconhecido, de onde, certamente, você que mora lá, não sabe. Nós, do lado de cá, conhecemos muito bem vocês, do lado de lá. E a recíproca não é verdadeira. O que vocês, de lá, têm, a gente sabe e imagina. Os que temos por aqui vocês desconhecem e ignoram, embora seja a mesma cidade e a mesma distância. Seja qual for o lado que você está, estamos no mesmo lugar. Assim é a Salvador, desigual, de quase todos os santos, não fosse um detalhe importante: a forma e o lugar do olhar. Quem está do lado de lá ou de cá, na verdade, não é possível de se definir. A praia do Porto da Barra está para Salvador assim como a de Base Naval está para a baía, com ou sem santos. Do lado de cá ou de lá depende unicamente do seu olhar.
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