sábado, 19 de dezembro de 2015

Jovens querem curso técnico em enfermagem e agropecuária no IFBA de Euclides da Cunha


Representantes dos Coletivos de Jovens de Euclides da Cunha (Cojec), Tucano (Coaj) e Quijingue (CMJQ) se reuniram na tarde desta sexta-feira (18) com o diretor do campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) de Euclides da Cunha, Antonio Adolfo Mendes, para entregar um documento onde o grupo formaliza à reitoria uma proposta de criação dos cursos técnico em agropecuária e técnico em enfermagem para serem ofertados no local.



Atualmente, o campus oferece formação técnica em edificações e informática. Segundo os jovens, mesmo havendo demanda para estas modalidades, os cursos não representam a realidade do município nem da região bem como o desejo da juventude, público alvo principal da instituição. “O município de Euclides da Cunha possui sua maior economia baseada na atividade agropecuária e possui uma população de mais de 26 mil jovens, o que corresponde a 46% do número total de habitantes. Além disso, em todos os encontros oficiais de juventude e de juventude rural, a proposta de disponibilização de cursos técnicos nestas duas áreas [agropecuária e enfermagem] específicas é, sem exceção, sempre aprovada por unanimidade. Entretanto, para os cursos já aprovados para Euclides da Cunha, o Coletivo Regional, que participa de todos estes encontros democráticos de diálogo, não possui registro de reivindicação nem de aprovação para os mesmos”, aponta o documento.

Durante a reunião, os jovens falaram sobre a criação da Lei de ATER, que instituiu a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) e a recente Chamada Pública para execução do Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural – PRONATER, medidas que têm estimulado a abertura de vagas de trabalho e de geração de renda para jovens com formação técnica em agropecuária. “O curso técnico oferece respostas ao mercado em menor tempo que a graduação regular, o que desperta o interesse da maior parte dos jovens, pois muitos são agricultores rurais em atividade, e preenche com maior prontidão e menor tempo a oferta de vagas de trabalho em toda a região”, diz o documento.

Em relação ao curso técnico em enfermagem proposto, o grupo explicou para o diretor que atualmente diversos jovens dos três municípios são obrigados a arcar com o pagamento de mensalidades em uma instituição privada, mesmo sem terem condições. “Os esforços para manterem as parcelas em dia, para aqueles que conseguem, são sobrenaturais e todos nutrem a esperança de que o IFBA possa disponibilizar um curso gratuito na área”, explicam.



Para o diretor, a reivindicação dos Coletivos de Jovens é oportuna, principalmente frente à possibilidade de Euclides da Cunha sediar um curso de medicina, o que demandaria profissionais também na área de enfermagem, mas alertou sobre as dificuldades de se instalar qualquer um dos dois cursos, especialmente pela necessidade de bons laboratórios.

Segundo Adolfo, em janeiro de 2016 deve acontecer uma segunda audiência para tratar dos cursos em andamento. Os Coletivos de Jovens dos três municípios já informaram que participarão do encontro e que mobilizarão a juventude para lutar pela implantação dos cursos técnicos em enfermagem e em agropecuária. “Um investimento de tamanha importância como é o campus do IFBA em Euclides da Cunha não pode deixar a desejar justamente naquilo que é a essência da instituição, de promover formação técnica de qualidade e condizente com a realidade local e regional. Temos a convicta certeza de que esta demanda será devidamente analisada e encaminhada a quem mais é de direito, a fim de garantir que o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia campus Euclides da Cunha possa futuramente representar na história da região um grande ícone fomentador do desenvolvimento social e econômico dos cidadãos pertencentes às cidades beneficiadas, e cumprindo, assim, o que está previsto na missão da Instituição”, complementa a carta.

O documento será encaminhado pela diretoria do IFBA ao reitor Prof. Renato da Anunciação Filho. Na oportunidade, os jovens informaram que também realizarão uma pesquisa de satisfação com os estudantes acerca dos cursos hoje ofertados e farão um abaixo-assinado nos três municípios para endossar a reivindicação.



Ao término da reunião, os jovens fizeram um passeio de reconhecimento pelas instalações do campus a convite do diretor.

Os Coletivos de Jovens de Euclides da Cunha, Tucano e Quijingue integram o Coletivo Regional de Juventude e Participação Social (CRJPS), entidade sem fins lucrativos, formada e gerida por jovens de quatro territórios de Identidade da Bahia e que tem por missão contribuir com o processo permanente de organização social da juventude, com vistas à sua inserção econômica, cultural, política e socioambiental.

Josevaldo Campos






terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Coletivo de Jovens promove coleta de lixo e conscientização ambiental em cachoeira da cidade

O Coletivo de Jovens de Euclides da Cunha (Cojec) recolheu durante a manhã deste domingo (13) uma quantidade inacreditável de lixo que foi jogado por visitantes em toda a área da Cachoeirinha da Queimada do Raso, em Euclides da Cunha.

A ação contou com a participação de 25 jovens, a maior parte integrante do Cojec, além de moradores e visitantes que abraçaram a ideia e colocaram a mão na massa, ou melhor, no lixo.



Recém-chegada no Coletivo de Jovens de Euclides da Cunha, Emily Almeida, 16, experimentou sua primeira ação prática e afirmou ter gostado do que viu, e, principalmente, do que ela pôde fazer pela natureza. “É realmente interessante, é realmente motivador você fazer uma ação como essa, porque nem todas as pessoas que chegam e jogam o lixo aqui voltam para pegar, então esta ação que estamos fazendo agora espero que seja resultante, que continue não só a gente vindo aqui para limpar, mas que as pessoas que jogarem seus lixos se conscientizem e levem ele embora”, disse a jovem.


Além de recolher o lixo que desequilibrava a beleza do local, os jovens plantaram mudas de árvores nativas da caatinga, colocaram placas com mensagens sobre preservação ambiental e instalaram duas lixeiras produzidas com pneus. Quando o grupo chegou ao local, seu Ademir dos Santos Costa, 47, lançou olhares curiosos para toda aquela movimentação. Minutos depois, ele já estava com um saco na mão e contribuindo com a ação. “Quando chego de São Paulo é o primeiro lugar que venho visitar para ‘dar uma refrescada’. A ação deu outro visual no local”, avaliou.


Vitor Silva tem 15 anos e é filho de seu Ademir. Assim como o pai, ele também se sensibilizou com a atitude dos jovens e se juntou ao grupo. “É bom ajudar a natureza e preservar o meio ambiente, porque muitas matas tão morrendo aí por causa disso. Achei bacana, legal”, elogiou.



Para o Cojec, as palavras do pequeno Vitor exemplificam com precisão o objetivo da ação ambiental naquele espaço: provocar na sociedade o espírito de preservação e de respeito com o meio ambiente. “Só de você vê esse local aqui como ele estava antes da gente chegar para agora, a atmosfera daqui já é outra. Vocês podem observar que não tem mais lixo aqui ao redor. Essa é uma questão educativa. Parabéns pela atitude de vocês, que isso cresça e que vire um hábito”, disse Regis Cabral Mendonça, técnico agropecuária que participou da ação depois que ficou sabendo pelo Facebook.


Josevaldo Campos, jornalista, membro do Coletivo de Jovens de Euclides da Cunha (Cojec).


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Jovens de Euclides da Cunha farão ação ambiental na Cachoeirinha da Queimada do Raso

No próximo domingo, dia 13 de dezembro, um grupo de jovens de Euclides da Cunha abrirá mão de acordar mais tarde, desfrutar de uma manhã de domingo e lazer com a família ou entre amigos para realizar uma ação ambiental na Cachoeirinha da Queimada do Raso, local distante 09 km do centro da cidade.

Os jovens fazem parte do Coletivo de Jovens de Euclides da Cunha (Cojec), grupo organizado e que integra o Coletivo Regional de Juventude e Participação Social (CRJPS). No local, o grupo vai recolher o lixo que foi deixado pelos visitantes, inserir lixeiras produzidas com pneus e fixar placas com mensagens educativas pedindo à população que preserve o espaço.

Com beleza deslumbrante, a Cahoeirinha, como é popularmente conhecida, é cercada por vegetação nativa e formações rochosas e fica localizada em uma propriedade particular. Os jovens sairão da Praça da Juventude às 5h30 de bicicleta e com destino ao local da ação. A intervenção é aberta para quem quiser acompanhar e é a primeira que os jovens realizarão na cidade para incentivar a preservação ambiental.

A ação conta também com o apoio da Comac, Material de Construção Senhor do Bonfim e ConstruShop, que contribuíram com a doação de tintas e madeiras para confecção das lixeiras e placas, além do Barbosa Pneus e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Euclides da Cunha.



Se você tiver interesse em apoiar as iniciativas do Cojec ou receber mais informações, envie um e-mail para cojec.crjps@gmail.com. Curta também nossa página no Facebook (www.facebook.com/cojec).

CRJPS – O Coletivo Regional de Juventude e Participação Social é uma entidade sem fins lucrativos, formada e gerida por jovens de quatro territórios de Identidade da Bahia e que tem por missão contribuir com o processo permanente de organização social da juventude, com vistas à sua inserção econômica, cultural, política e socioambiental.

COJEC – Formado em 2008, o Coletivo de Jovens de Euclides da Cunha reúne jovens de diversas agremiações, comprometidos com o desenvolvimento social da cidade, promoção da cidadania e o empoderamento da própria juventude.

Josevaldo Campos


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Quarta edição do Sarau na Rua fará referência ao mês da Consciência Negra



A quarta edição do Sarau na Rua já tem data marcada, 28 de novembro (sábado) e fará referência à luta do Movimento Negro, em alusão ao mês da Consciência Negra – Novembro Negro.

Pensado para resgatar, promover e divulgar a cultura local, sob diversas tonalidades artísticas, o Sarau na Rua volta seus olhos multicoloridos e multifacetados para provocar a luta dos afrodescendentes, repudiando a segregação, a desigualdade, a discriminação e o preconceito nas suas diversas formas sorrateiras de se manifestar.

A iniciativa artística, como já é sabido, nasceu em Tucano, fruto da inquietação de alguns jovens do Coletivo Ação Juvenil de Tucano (Coaj), movimento organizado e parte integrante do Coletivo Regional Juventude e Participação Social (CRJPS). 

Não só a cidade de Tucano é majoritariamente branca, como também a cor da pele de quem organiza o Sarau. O diferencial que faz com que os jovens se voltem para a temática e enxerguem uma grande oportunidade de dar visibilidade à causa por meio da arte está nos olhos de quem tenta frear a máquina mortífera do preconceito e da discriminação racial.

Tucano também tem comunidades negras, quilombolas, dizem os mais estudados. Um povo negro que não se reconhece como tal e parte disso se deve à ausência de iniciativas que estimulem o autoconhecimento como negro e a valorização de uma tradição.

Há na internet uma frase atribuída a Paulo Autran que diz o seguinte: “Todo preconceito é fruto da burrice, da ignorância, e qualquer atividade cultural contra preconceitos é válida”. Referendar o Movimento Negro quando todo o estado da Bahia estará voltado para homenagear o Novembro Negro, a Consciência Negra, é oportuno. E deixa de ser clichê, banal, a partir do momento em que os organizadores decidiram abordar o tema por meio dos três eixos já trabalhados no Sarau: Desigualdade Social, Movimento LGBT e Feminismo. 

Outra novidade vai tornar este dia diferenciado, singular. O artista da terra, Mohzah Nascimento, que conquistou recentemente o primeiro lugar no Festival Metropolitano de Música Vozes da Terra 2015, em Feira de Santana, confirmou presença na noite. Será mais uma voz para ressoar, expandir os gritos de um povo que anseia por liberdade, pelo direito de livremente ser o que ele é.

No dia 28 de novembro, a quarta edição do Sarau na Rua não só vai reunir muita gente de Tucano e cidades vizinhas que já tornaram o evento agenda imperdível, mas também arrecadará alimentos não perecíveis, roupas, brinquedos e livros para doar em comunidades carentes da cidade. Se for de coração e achar justa a causa, doe.

O Sarau na Rua começa às 19h, o palco é livre e multicolorido. Como bem sugere a frase de Paulo Autran, se esta iniciativa contribuir para a diminuição da burrice, da ignorância, terá valido a pena e cumprido o seu papel. Porque o preconceito e a discriminação, sejam eles racial, social ou econômico, terão terminado no dia em que a consciência humana prevalecer sobre todas as outras cores.  

Josevaldo Campos

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Culturando na Praça. Iniciativa de três coletivos de jovens está versando ideias transformadoras para municípios

Sábado e domingo, dias 07 e 08 de novembro, jovens dos municípios de Tucano, Quijingue e Euclides da Cunha, semiárido baiano, abriram mão de estarem com as famílias, de viagens e até da habitual presença dos amigos para participarem daquilo que os desavisados classificariam como “trabalho de adulto”.

Tratava-se da primeira edição do Culturando na Praça – Versando Ideias, um projeto itinerante de intercâmbio, formação e promoção cultural desenvolvido pelos coletivos de jovens dos três municípios, todos integrantes do Coletivo Regional de Juventude e Participação Social (CRJPS).

A manhã do sábado começou com cada coletivo apresentando as principais ações que estão sendo desenvolvidas nos respectivos municípios e aquelas que estão previstas para serem executadas. Diferentemente do que geralmente acontece nos “trabalhos de adultos”, as apresentações tinham muito mais o formato de um bate-papo, não só pelo fato de serem jovens com o papel e a caneta nas mãos, mas, sobretudo, porque as ações desenvolvidas e apresentadas ali são conhecidas de todo o público e integram o rol de intervenções do CRJPS.

Nos intervalos das apresentações, cada coletivo trouxe para o palco uma mostra cultural. Aliás, para cada canto do espaço que se observava, via-se alguma manifestação artística se versando.

À tarde, reunidos em grupos, os jovens levantaram propostas de bandeiras de luta para debate e aprovação e posterior realização de ações individuais e coletivas, além de um bate-papo com um dos coordenadores do CRJPS, que falou sobre os novos desafios para a juventude. 

Dentre os principais temas a serem trabalhados no próximo ano está Feminismo, Preservação Ambiental, Não Redução da Maioridade Penal, Legalização da Maconha e Causa LGBT, temas da atualidade e que precisam ser discutidos e compartilhados com a sociedade, livres de preconceitos. A principal ação será promover nas escolas dos municípios formação e oficinas educativas com estudantes do ensino fundamental e médio.


Para fechar a tarde de atividades, cada coletivo promoveu uma formação sobre os seguintes temas e provocou nos participantes a criação de um produto, os quais foram apresentados em praça pública : genocídio da juventude (Coletivo de Jovens de Euclides da Cunha – Cojec), que culminou com um amplo debate e composição coletiva de uma canção intitulada “Qual a cara do ladrão?”. O Coletivo de Jovens de Tucano (Coaj) trouxe uma discussão sobre apropriação cultural, tendo como base o uso dos turbantes, abordando a história e uso consciente do objeto. Durante o evento noturno na Praça Maria Bonita (o nome não podia ser mais oportuno), os participantes fizeram turbantes na cabeça de diversos expectadores, deixando o ambiente ainda mais cult. Super bonito!

O Coletivo de Quijingue (CMJQ), por sua vez, botou o povo pra dançar, literalmente, com uma oficina de dança. E os jovens mostram, à noite, que têm muita ginga no pé. Os aplausos do público carimbaram a qualidade e beleza da apresentação final. E essa foi apenas uma das apresentações artísticas que animaram a noite da primeira edição do Culturando na Praça, onde toda forma de linguagem cultural pôde se manifestar.

Domingo, bem cedo, era hora de acordar e seguir, em caminhada, rumo a um açude da cidade, onde estava prevista uma ação socioambiental. Por lá, os jovens realizaram a limpeza de todo o entorno do local (muito bonito, por sinal, a água é uma delícia para o banho), plantaram mudas de árvores, instalaram lixeiras recicladas e ecológicas, produzidas pelos coletivos para este fim, e colocaram placas com mensagens educativas clamando aos visitantes para preservar o ambiente.

Embora a ação tenha sido um sucesso e muito lindo o engajamento de todos, a cena final era de lamentar. Vários sacos grandes de lixo, repletos de material descartável de todo tipo, foram recolhidos pelos jovens. Um retrato fiel – e triste – da forma como a comunidade local trata aquele oásis, popularmente chamado de açude. Todo o material reaproveitável vai virar arte nas mãos do artista plástico Adriano Motta, que, inclusive, abraçou a ideia do Culturando e estava por lá o tempo todo dando suas contribuições.

Com a intervenção, a vegetação que cerca o açude ganhou outra cara, sem o colorido agressivo do lixo. Ao retornar para o centro da cidade, as inúmeras reflexões entre os jovens foram inevitáveis e um sonho ficou plantado lá naquele espaço: que as árvores cresçam, produzam, e que brotem novas ideias na cabeça de todos que frequentem o local.

Josevaldo Campos, jornalista




sábado, 24 de agosto de 2013

Dívidas: A diferente semelhança entre Tucano e Salvador

Na quinta-feira (22), o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), anunciou o parcelamento da dívida total do município deixada pelos ex-gestores, valor que, segundo informações divulgadas, é de quase R$ 3 bilhões.

Destes, seu antecessor, João Henrique, deixou de presente nada mais nada menos que R$ 559 milhões. Só com a Receita Federal, referente à contribuição previdenciária de servidores municipais, foram mais de R$ 5 milhões.

Embora em proporções menores, as cifras encontradas por lá também “gorjeiam como as daqui”. Ao assumir a prefeitura de Tucano, o atual gestor, Dr. Igor (PT), foi obrigado a negociar com o INSS, tal como fez ACM Neto lá em Salvador, uma dívida histórica de R$ 55 milhões regada pelos ex-prefeitos, valor 11 vezes mais que o deixado na terceira maior capital do país. Ou parcelava e pagava o preço ou podia esquecer o seu sonho de fazer uma gestão recheada de obras e investimentos vindos de fora. Não só parcelou como está pagando um preço alto, para além das cifras que voam mensalmente antes mesmo de pousar no município.

Lá, em Salvador, o secretário municipal da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, recém-chegado na pasta, já percebeu a realidade. “A situação da prefeitura é extremamente difícil. Se fôssemos pagar todas as dívidas deixadas não teríamos mais Guarda Municipal trabalhando, não pagaríamos as empresas de coleta de lixo, não faríamos mais nada. Não temos disponibilidade financeira para honrá-la”, assumiu.

Por aqui, o secretário de Administração e Finanças, Stefan Moreira, vive cercado, literalmente, com os números, e tenta sobreviver às oscilações fiscais e fazer mágica com os repasses federais. Se a capital baiana está sentindo o rombo, em Tucano o buraco é ainda mais embaixo. E tem muita coisa podre. Além da dívida milionária com a Receita Federal, o município teve que sentar-se à mesa de negociação com a Embasa e parcelar, em prestações quase infinitas, dívida de R$ 1,2 milhão. Daí pra frente a lista não parou de crescer.

Só com o GFIP, que é o repasse obrigatório à Previdência Social, o município desembolsa entre R$800mil a R$900 mil por mês. E não é só isso. O parcelamento da dívida dos R$55 milhões leva mais R$100 mil. Aí, evidentemente, vão somando os outros valores da lista, num processo de negociação que, certamente, com um esforço criativo-cinematográfico, renderia uma segunda Lista de Schindler, na versão fiscal-tucanense. “São valores que, com certeza, fazem falta às finanças públicas, aos caixas públicos. Mas ainda assim fizemos o esforço”, explica o secretário Stefan Moreira, diante de um cálculo óbvio, para tentar desenfrear a opinião inexata da oposição.

Lá, em Salvador, a prefeitura estava sem poder reformar e ampliar oito postos de saúde, realizar obras de contenção de encostas, fazer dragagens de canais e construir equipamentos esportivos porque o nome estava sujo. O prefeito limpou, exibiu a certidão negativa de débitos como troféu, e liberou, imediatamente, cerca de R$ 20 milhões para realizar as obras. Aqui, em Tucano, o prefeito também conseguiu o documento, mas, ao que parece, o povo estava interessado no troféu apenas enquanto ele parecia inalcançável. Depois de erguido, perdeu valor. Mas, deveras, há de ser apenas diferenças culturais entre as duas cidades.

Josevaldo Campos, jornalista

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O retorno da chuva e da esperança


A imagem da vegetação verde ressurgindo na paisagem triste, morta, cinza do sertão baiano traz de volta lembranças gostosas dos tempos das boas enchentes e da fartura das lavouras. Chuva, uma palavra carregada de esperança e, na sua própria essência escrita, reproduz o som que, nos últimos meses, era a canção que mais os baianos queriam ouvir: chuuuu....vaaaa!

Pois ela veio, finalmente, e com muita força. Há uma semana, as chuvas que caem nos quatro cantos do estado trazem alegria e esperança para agricultores e, em poucos dias, já começa a mudar a cara da paisagem semiárida. Diante de tanta felicidade, alguns moradores de municípios da Bahia ignoraram o fato de a chuva trazer alguns prejuízos, funcionando como uma verdadeira anestesia para tanto sofrimento. Nada, definitivamente (e compreensível) é mais importante do que a presença da chuva.

De Norte a Sul do estado, agricultores não perdem a esperança e, muito menos, tempo. Começam a espalhar pelas terras sementes que germinarão muito mais do que alimentos para combater a fome.

A previsão para os próximos dias é de mais chuvas. Isso qualquer sertanejo sabe identificar ao olhar para o céu. Aliás, nos últimos meses, diante da maior seca das últimas décadas, olhar para cima e rogar pela ajuda divina era muito mais agradável do que contemplar a terra seca e completamente morta.

A famosa frase de que o sertão tem de tudo que se precisa e o que faltar se inventa por pouco não chega a um novo patamar de interpretação, quando se decidiu, através do uso de aviões, “fabricar a chuva”. Não deu muito certo, por uma série de questões, inclusive de ordem natural.

E muito natural foi a forma como Ele, lá de cima, decidiu, “de uma hora para outra”, molhar as terras secas e adubar as esperanças do povo. Funcionou como, de fato, uma obra do divino. Nunca antes a chuva teve um sabor tão especial.

Josevaldo Campos

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O caso Mirella Cunha e o jornalismo indigesto

É claro que assinei o abaixo-assinado e a carta aberta de jornalistas sobre abusos de programas policialescos e sensacionalistas na Bahia. Foi o primeiro manifesto da consciência depois de assistir ao vídeo onde a deprimente e faz de conta de repórter Mirella Cunha, da TV Band Bahia, tenta, de forma desesperada e infeliz, alçar seu “profissionalismo” através de total desrespeito ao Código de Ética dos Jornalistas, aos direitos humanos e à Constituição Federal.

Embora acusado de roubo e estupro, não são os possíveis crimes cometidos pelo jovem, negro, identificado como Paulo Sérgio que gera indignação naqueles quem têm coragem e estômago de assistir ao vídeo na íntegra. As investidas da jovem Mirella Cunha, loira, identificada como repórter do programa Brasil Urgente (Bahia), em cima do desconhecimento do garoto sobre temas nem tão abordados assim pela mídia, causa repulsa. E lágrimas.

Confesso que por ser jornalista, negro e jovem essa aversão à postura da jovem Mirella Cunha esteja factível às influências. Mas, ao mesmo tempo, as inúmeras manifestações de repúdio Brasil afora indicam justamente o contrário. E Mirella não está sozinha. Ela representa, de uma das formas mais aberrante e desprezível possível, uma grande parcela de pessoas que se julgam jornalistas, repórteres e também de emissoras que apostam (e jogam sujo) na prática de um jornalismo descompromissado com o desenvolvimento social. Para estes, o que vale é o crescimento da audiência, não importando os caminhos para se chegar lá.

A boa conduta social e o respeito ao próximo manda que cada cidadão cumpra com seus deveres e respeite os direitos alheios. O descumprimento pode (e deve) incorrer em punições jurídicas. Contudo, o mesmo não acontece com programas que abusam da boa sensibilidade e extrapolam todas as fronteiras possíveis do respeito ao cidadão. Em nome dessa tal audiência, infligem leis e ignoram as obrigações e continuam desfrutando das concessões públicas. E o resultado mais imediato é a criação de distorções e de heróis da miséria alheia, tal qual nossa personagem da semana.

Clique aqui e confira o vídeo através do Youtube.

Josevaldo Campos

terça-feira, 15 de maio de 2012

O poder de uma capa de jornal

Apesar de saber a resposta, eu ainda insisto em, diariamente, após ler os principais jornais da Bahia, fazer uma pergunta inevitável: por que os fatos negativos ganham tanto destaque nesses veículos e sempre são premiados com a capa. A afirmativa de que as notícias ruins em relação às positivas têm mais aceitação, chamam mais a atenção do público leitor me parece muito superficial. Seria mais ou menos o mesmo que afirmar que os leitores são, por assim dizer, uma espécie avançada de masoquista-observador.

 Conheço, por exemplo, muitas experiências positivas que são realizadas em Salvador e em outras cidades da Bahia que não estão nesses jornais. Não é difícil procurar muito para encontrar jovens protagonistas, ONGs que atuam com projetos sociais através de metodologias brilhantes, pauta suficiente para encher as editorias de todos os jornais que circulam hoje pelas mãos dos baianos. Mas estas boas práticas não têm espaço. O olhar (aguçado) dos jornalistas (?) que trabalham nesses veículos são treinados para enxergar apenas mortes, roubos, sequestros, prostituição… Notícia boa? Para eles só quando alguém é preso ou um criminoso é morto. Seja lá como for, o sangue, a tristeza, o medo, o choro precisam estar presentes.

Quando eu estava no segundo semestre do curso de comunicação, tive a oportunidade de trabalhar em um dos principais jornais da Bahia. Agradeci, sob o argumento de que precisava ganhar mais experiência. Menti. Reconheço que minha recusa tinha em sua essência alguns resquícios de estudante-de-jornalimo-que-sonha-mudar-o-mundo. Eu não via (e ainda não a vejo) a bendita da comunicação social propriamente dita nas palavras impressas naquele papel caro. Isso tem feito com que eu não me arrependa das escolhas tomadas.

Eu ainda acredito que um dia experiências como a do Coletivo Regional Juventude e Participação Social, grupo organizado de jovens que atua no semiárido baiano, terá espaço na capa destes jornais. O trabalho é inteligente, envolve direta e indiretamente mais de dois mil jovens de 25 municípios. O que eles fazem por lá muita gente grande não sabe fazer por aqui. Há, apesar de raras, como se sugere, as exceções. Volta e meia encontramos uma alegria perdida em alguma página de um ou dois jornais. Nada mais.

Os jornais têm o poder de influenciar o que será lido por crianças, adolescentes e jovens, e contribuir para uma formação sadia. Então por que não apresentar-lhes no cardápio opções saborosas, que contribuirão para uma boa digestão?

Para se fazer um jornalismo melhor, mais social, não é necessário esconder a realidade, mas ao menos apresentá-la por completo. Posso, um dia, pagar caro por estas palavras, mas esse hoje é meu pensamento, a minha consciência. E vale ressaltar que o que penso ou estas palavras que vos escrevo nunca ocupará as páginas caras desses jornais. Não necessariamente porque não tem sangue, mas pelo risco que ela oferece de educar.

Josevaldo Campos

segunda-feira, 19 de março de 2012

O poder mobilizador e de transformação da comunicação

No início de novembro de 2011, estive em Camamu, cidade localizada no Baixo Sul da Bahia, para passar a adolescentes e jovens rurais noções de comunicação, com foco na produção de jornal. A proposta era simples, porém desafiadora: fazer com que aqueles meninos e meninas aprendessem o ofício e, o mais importante, fossem motivados a continuar o trabalho nas comunidades onde moravam.

Para muitos deles, era o primeiro contato com o computador. Então falar-lhes sobre gêneros jornalísticos, editorias, lide, linha editorial, elementos textuais e gráficos e pirâmide invertida constituía uma missão ousada. Além do jornal, eles tiveram contato com as linguagens de fotografia, rádio e internet. E saíram empolgados. A semente havia sido plantada.

Eles vinham de comunidades rurais, assentamentos e quilombos. Lugares longes e de difícil acesso, prato cheio para desistirem e continuar onde estavam. A desculpa, afinal, estava armada! Durante a oficina, o desafio de parar, pensar e listar sobre o que eles queriam falar sobre cada comunidades, numa verdadeira reunião de pauta, foi enriquecedor. Isso porque, depois de escrever sobre os pontos fracos e fortes de cada localidade, muitos deles acabaram por descobrir as belezas que os cercam ou as mazelas que precisam ser superadas. A valorização e o compromisso com a herança cultural e a natureza da região foi, talvez, o legado mais importante, e por que não dizer, mais emocionante do aprendizado.

Em fevereiro desse ano, uma mensagem de celular foi o bastante para provar o poder mobilizador e transformador da comunicação. Em uma das comunidades participantes, uma semente havia brotado. Nascia “A Voz da Juventude”, um jornalzinho experimental criado pelos novos comunicadores, e que vinha com o verdadeiro espírito da comunicação social: levar informação, divulgar, valorizar e respeitar as diversidades.

Para se chegar até a comunidade do Barroso não é fácil. A estrada é irregular e, se chover, fica praticamente inviável. Mas a paisagem exuberante e a vontade de reencontrá-los foram vencendo as dificuldades. Durante dois dias, levamos mais informações sobre foto e jornal, e eles, em troca, nos deram a grande oportunidade e experiência de viver a comunidade e de conhecer as belezas naturais, além de relembrar um sentimento quase extinto nos grandes centros: a gentileza.

A chegada da chuva anunciava, tristemente, o fim das atividades e que era hora de ir embora. Do contrário, poderíamos ficar por ali mais alguns dias, o que, evidentemente, não seria nenhuma má ideia da sagrada natureza. Somente quem esteve por lá sabe o que significa ver a simplicidade de seu Elinaldo, pequeno produtor de cacau e guaraná; a sabedoria incondicional de Ana Célia, a Dra das ervas medicinais; as delícias da culinária e o sorriso tímido, porém verdadeiro e cativante de dona Delza. A garra de dona Maria que, aos 63 anos, ainda trabalha na roça e sobra tempo e simpatia para receber a todos com tanto amor e dedicação.

Mas o melhor de tudo é que estas histórias poderão ser vividas por muito mais pessoas, porque estão contadas, pelos meninos e meninas, no Fala Comunidade, o jornal que eles deram vida, vez e voz, e que agora vai girar, através de uma comunicação democrática e social, marcando um novo capítulo nessa história.

Texto e foto: Josevaldo Campos