segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Quarta edição do Sarau na Rua fará referência ao mês da Consciência Negra



A quarta edição do Sarau na Rua já tem data marcada, 28 de novembro (sábado) e fará referência à luta do Movimento Negro, em alusão ao mês da Consciência Negra – Novembro Negro.

Pensado para resgatar, promover e divulgar a cultura local, sob diversas tonalidades artísticas, o Sarau na Rua volta seus olhos multicoloridos e multifacetados para provocar a luta dos afrodescendentes, repudiando a segregação, a desigualdade, a discriminação e o preconceito nas suas diversas formas sorrateiras de se manifestar.

A iniciativa artística, como já é sabido, nasceu em Tucano, fruto da inquietação de alguns jovens do Coletivo Ação Juvenil de Tucano (Coaj), movimento organizado e parte integrante do Coletivo Regional Juventude e Participação Social (CRJPS). 

Não só a cidade de Tucano é majoritariamente branca, como também a cor da pele de quem organiza o Sarau. O diferencial que faz com que os jovens se voltem para a temática e enxerguem uma grande oportunidade de dar visibilidade à causa por meio da arte está nos olhos de quem tenta frear a máquina mortífera do preconceito e da discriminação racial.

Tucano também tem comunidades negras, quilombolas, dizem os mais estudados. Um povo negro que não se reconhece como tal e parte disso se deve à ausência de iniciativas que estimulem o autoconhecimento como negro e a valorização de uma tradição.

Há na internet uma frase atribuída a Paulo Autran que diz o seguinte: “Todo preconceito é fruto da burrice, da ignorância, e qualquer atividade cultural contra preconceitos é válida”. Referendar o Movimento Negro quando todo o estado da Bahia estará voltado para homenagear o Novembro Negro, a Consciência Negra, é oportuno. E deixa de ser clichê, banal, a partir do momento em que os organizadores decidiram abordar o tema por meio dos três eixos já trabalhados no Sarau: Desigualdade Social, Movimento LGBT e Feminismo. 

Outra novidade vai tornar este dia diferenciado, singular. O artista da terra, Mohzah Nascimento, que conquistou recentemente o primeiro lugar no Festival Metropolitano de Música Vozes da Terra 2015, em Feira de Santana, confirmou presença na noite. Será mais uma voz para ressoar, expandir os gritos de um povo que anseia por liberdade, pelo direito de livremente ser o que ele é.

No dia 28 de novembro, a quarta edição do Sarau na Rua não só vai reunir muita gente de Tucano e cidades vizinhas que já tornaram o evento agenda imperdível, mas também arrecadará alimentos não perecíveis, roupas, brinquedos e livros para doar em comunidades carentes da cidade. Se for de coração e achar justa a causa, doe.

O Sarau na Rua começa às 19h, o palco é livre e multicolorido. Como bem sugere a frase de Paulo Autran, se esta iniciativa contribuir para a diminuição da burrice, da ignorância, terá valido a pena e cumprido o seu papel. Porque o preconceito e a discriminação, sejam eles racial, social ou econômico, terão terminado no dia em que a consciência humana prevalecer sobre todas as outras cores.  

Josevaldo Campos

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Culturando na Praça. Iniciativa de três coletivos de jovens está versando ideias transformadoras para municípios

Sábado e domingo, dias 07 e 08 de novembro, jovens dos municípios de Tucano, Quijingue e Euclides da Cunha, semiárido baiano, abriram mão de estarem com as famílias, de viagens e até da habitual presença dos amigos para participarem daquilo que os desavisados classificariam como “trabalho de adulto”.

Tratava-se da primeira edição do Culturando na Praça – Versando Ideias, um projeto itinerante de intercâmbio, formação e promoção cultural desenvolvido pelos coletivos de jovens dos três municípios, todos integrantes do Coletivo Regional de Juventude e Participação Social (CRJPS).

A manhã do sábado começou com cada coletivo apresentando as principais ações que estão sendo desenvolvidas nos respectivos municípios e aquelas que estão previstas para serem executadas. Diferentemente do que geralmente acontece nos “trabalhos de adultos”, as apresentações tinham muito mais o formato de um bate-papo, não só pelo fato de serem jovens com o papel e a caneta nas mãos, mas, sobretudo, porque as ações desenvolvidas e apresentadas ali são conhecidas de todo o público e integram o rol de intervenções do CRJPS.

Nos intervalos das apresentações, cada coletivo trouxe para o palco uma mostra cultural. Aliás, para cada canto do espaço que se observava, via-se alguma manifestação artística se versando.

À tarde, reunidos em grupos, os jovens levantaram propostas de bandeiras de luta para debate e aprovação e posterior realização de ações individuais e coletivas, além de um bate-papo com um dos coordenadores do CRJPS, que falou sobre os novos desafios para a juventude. 

Dentre os principais temas a serem trabalhados no próximo ano está Feminismo, Preservação Ambiental, Não Redução da Maioridade Penal, Legalização da Maconha e Causa LGBT, temas da atualidade e que precisam ser discutidos e compartilhados com a sociedade, livres de preconceitos. A principal ação será promover nas escolas dos municípios formação e oficinas educativas com estudantes do ensino fundamental e médio.


Para fechar a tarde de atividades, cada coletivo promoveu uma formação sobre os seguintes temas e provocou nos participantes a criação de um produto, os quais foram apresentados em praça pública : genocídio da juventude (Coletivo de Jovens de Euclides da Cunha – Cojec), que culminou com um amplo debate e composição coletiva de uma canção intitulada “Qual a cara do ladrão?”. O Coletivo de Jovens de Tucano (Coaj) trouxe uma discussão sobre apropriação cultural, tendo como base o uso dos turbantes, abordando a história e uso consciente do objeto. Durante o evento noturno na Praça Maria Bonita (o nome não podia ser mais oportuno), os participantes fizeram turbantes na cabeça de diversos expectadores, deixando o ambiente ainda mais cult. Super bonito!

O Coletivo de Quijingue (CMJQ), por sua vez, botou o povo pra dançar, literalmente, com uma oficina de dança. E os jovens mostram, à noite, que têm muita ginga no pé. Os aplausos do público carimbaram a qualidade e beleza da apresentação final. E essa foi apenas uma das apresentações artísticas que animaram a noite da primeira edição do Culturando na Praça, onde toda forma de linguagem cultural pôde se manifestar.

Domingo, bem cedo, era hora de acordar e seguir, em caminhada, rumo a um açude da cidade, onde estava prevista uma ação socioambiental. Por lá, os jovens realizaram a limpeza de todo o entorno do local (muito bonito, por sinal, a água é uma delícia para o banho), plantaram mudas de árvores, instalaram lixeiras recicladas e ecológicas, produzidas pelos coletivos para este fim, e colocaram placas com mensagens educativas clamando aos visitantes para preservar o ambiente.

Embora a ação tenha sido um sucesso e muito lindo o engajamento de todos, a cena final era de lamentar. Vários sacos grandes de lixo, repletos de material descartável de todo tipo, foram recolhidos pelos jovens. Um retrato fiel – e triste – da forma como a comunidade local trata aquele oásis, popularmente chamado de açude. Todo o material reaproveitável vai virar arte nas mãos do artista plástico Adriano Motta, que, inclusive, abraçou a ideia do Culturando e estava por lá o tempo todo dando suas contribuições.

Com a intervenção, a vegetação que cerca o açude ganhou outra cara, sem o colorido agressivo do lixo. Ao retornar para o centro da cidade, as inúmeras reflexões entre os jovens foram inevitáveis e um sonho ficou plantado lá naquele espaço: que as árvores cresçam, produzam, e que brotem novas ideias na cabeça de todos que frequentem o local.

Josevaldo Campos, jornalista




sábado, 24 de agosto de 2013

Dívidas: A diferente semelhança entre Tucano e Salvador

Na quinta-feira (22), o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), anunciou o parcelamento da dívida total do município deixada pelos ex-gestores, valor que, segundo informações divulgadas, é de quase R$ 3 bilhões.

Destes, seu antecessor, João Henrique, deixou de presente nada mais nada menos que R$ 559 milhões. Só com a Receita Federal, referente à contribuição previdenciária de servidores municipais, foram mais de R$ 5 milhões.

Embora em proporções menores, as cifras encontradas por lá também “gorjeiam como as daqui”. Ao assumir a prefeitura de Tucano, o atual gestor, Dr. Igor (PT), foi obrigado a negociar com o INSS, tal como fez ACM Neto lá em Salvador, uma dívida histórica de R$ 55 milhões regada pelos ex-prefeitos, valor 11 vezes mais que o deixado na terceira maior capital do país. Ou parcelava e pagava o preço ou podia esquecer o seu sonho de fazer uma gestão recheada de obras e investimentos vindos de fora. Não só parcelou como está pagando um preço alto, para além das cifras que voam mensalmente antes mesmo de pousar no município.

Lá, em Salvador, o secretário municipal da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, recém-chegado na pasta, já percebeu a realidade. “A situação da prefeitura é extremamente difícil. Se fôssemos pagar todas as dívidas deixadas não teríamos mais Guarda Municipal trabalhando, não pagaríamos as empresas de coleta de lixo, não faríamos mais nada. Não temos disponibilidade financeira para honrá-la”, assumiu.

Por aqui, o secretário de Administração e Finanças, Stefan Moreira, vive cercado, literalmente, com os números, e tenta sobreviver às oscilações fiscais e fazer mágica com os repasses federais. Se a capital baiana está sentindo o rombo, em Tucano o buraco é ainda mais embaixo. E tem muita coisa podre. Além da dívida milionária com a Receita Federal, o município teve que sentar-se à mesa de negociação com a Embasa e parcelar, em prestações quase infinitas, dívida de R$ 1,2 milhão. Daí pra frente a lista não parou de crescer.

Só com o GFIP, que é o repasse obrigatório à Previdência Social, o município desembolsa entre R$800mil a R$900 mil por mês. E não é só isso. O parcelamento da dívida dos R$55 milhões leva mais R$100 mil. Aí, evidentemente, vão somando os outros valores da lista, num processo de negociação que, certamente, com um esforço criativo-cinematográfico, renderia uma segunda Lista de Schindler, na versão fiscal-tucanense. “São valores que, com certeza, fazem falta às finanças públicas, aos caixas públicos. Mas ainda assim fizemos o esforço”, explica o secretário Stefan Moreira, diante de um cálculo óbvio, para tentar desenfrear a opinião inexata da oposição.

Lá, em Salvador, a prefeitura estava sem poder reformar e ampliar oito postos de saúde, realizar obras de contenção de encostas, fazer dragagens de canais e construir equipamentos esportivos porque o nome estava sujo. O prefeito limpou, exibiu a certidão negativa de débitos como troféu, e liberou, imediatamente, cerca de R$ 20 milhões para realizar as obras. Aqui, em Tucano, o prefeito também conseguiu o documento, mas, ao que parece, o povo estava interessado no troféu apenas enquanto ele parecia inalcançável. Depois de erguido, perdeu valor. Mas, deveras, há de ser apenas diferenças culturais entre as duas cidades.

Josevaldo Campos, jornalista

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O retorno da chuva e da esperança


A imagem da vegetação verde ressurgindo na paisagem triste, morta, cinza do sertão baiano traz de volta lembranças gostosas dos tempos das boas enchentes e da fartura das lavouras. Chuva, uma palavra carregada de esperança e, na sua própria essência escrita, reproduz o som que, nos últimos meses, era a canção que mais os baianos queriam ouvir: chuuuu....vaaaa!

Pois ela veio, finalmente, e com muita força. Há uma semana, as chuvas que caem nos quatro cantos do estado trazem alegria e esperança para agricultores e, em poucos dias, já começa a mudar a cara da paisagem semiárida. Diante de tanta felicidade, alguns moradores de municípios da Bahia ignoraram o fato de a chuva trazer alguns prejuízos, funcionando como uma verdadeira anestesia para tanto sofrimento. Nada, definitivamente (e compreensível) é mais importante do que a presença da chuva.

De Norte a Sul do estado, agricultores não perdem a esperança e, muito menos, tempo. Começam a espalhar pelas terras sementes que germinarão muito mais do que alimentos para combater a fome.

A previsão para os próximos dias é de mais chuvas. Isso qualquer sertanejo sabe identificar ao olhar para o céu. Aliás, nos últimos meses, diante da maior seca das últimas décadas, olhar para cima e rogar pela ajuda divina era muito mais agradável do que contemplar a terra seca e completamente morta.

A famosa frase de que o sertão tem de tudo que se precisa e o que faltar se inventa por pouco não chega a um novo patamar de interpretação, quando se decidiu, através do uso de aviões, “fabricar a chuva”. Não deu muito certo, por uma série de questões, inclusive de ordem natural.

E muito natural foi a forma como Ele, lá de cima, decidiu, “de uma hora para outra”, molhar as terras secas e adubar as esperanças do povo. Funcionou como, de fato, uma obra do divino. Nunca antes a chuva teve um sabor tão especial.

Josevaldo Campos

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O caso Mirella Cunha e o jornalismo indigesto

É claro que assinei o abaixo-assinado e a carta aberta de jornalistas sobre abusos de programas policialescos e sensacionalistas na Bahia. Foi o primeiro manifesto da consciência depois de assistir ao vídeo onde a deprimente e faz de conta de repórter Mirella Cunha, da TV Band Bahia, tenta, de forma desesperada e infeliz, alçar seu “profissionalismo” através de total desrespeito ao Código de Ética dos Jornalistas, aos direitos humanos e à Constituição Federal.

Embora acusado de roubo e estupro, não são os possíveis crimes cometidos pelo jovem, negro, identificado como Paulo Sérgio que gera indignação naqueles quem têm coragem e estômago de assistir ao vídeo na íntegra. As investidas da jovem Mirella Cunha, loira, identificada como repórter do programa Brasil Urgente (Bahia), em cima do desconhecimento do garoto sobre temas nem tão abordados assim pela mídia, causa repulsa. E lágrimas.

Confesso que por ser jornalista, negro e jovem essa aversão à postura da jovem Mirella Cunha esteja factível às influências. Mas, ao mesmo tempo, as inúmeras manifestações de repúdio Brasil afora indicam justamente o contrário. E Mirella não está sozinha. Ela representa, de uma das formas mais aberrante e desprezível possível, uma grande parcela de pessoas que se julgam jornalistas, repórteres e também de emissoras que apostam (e jogam sujo) na prática de um jornalismo descompromissado com o desenvolvimento social. Para estes, o que vale é o crescimento da audiência, não importando os caminhos para se chegar lá.

A boa conduta social e o respeito ao próximo manda que cada cidadão cumpra com seus deveres e respeite os direitos alheios. O descumprimento pode (e deve) incorrer em punições jurídicas. Contudo, o mesmo não acontece com programas que abusam da boa sensibilidade e extrapolam todas as fronteiras possíveis do respeito ao cidadão. Em nome dessa tal audiência, infligem leis e ignoram as obrigações e continuam desfrutando das concessões públicas. E o resultado mais imediato é a criação de distorções e de heróis da miséria alheia, tal qual nossa personagem da semana.

Clique aqui e confira o vídeo através do Youtube.

Josevaldo Campos

terça-feira, 15 de maio de 2012

O poder de uma capa de jornal

Apesar de saber a resposta, eu ainda insisto em, diariamente, após ler os principais jornais da Bahia, fazer uma pergunta inevitável: por que os fatos negativos ganham tanto destaque nesses veículos e sempre são premiados com a capa. A afirmativa de que as notícias ruins em relação às positivas têm mais aceitação, chamam mais a atenção do público leitor me parece muito superficial. Seria mais ou menos o mesmo que afirmar que os leitores são, por assim dizer, uma espécie avançada de masoquista-observador.

 Conheço, por exemplo, muitas experiências positivas que são realizadas em Salvador e em outras cidades da Bahia que não estão nesses jornais. Não é difícil procurar muito para encontrar jovens protagonistas, ONGs que atuam com projetos sociais através de metodologias brilhantes, pauta suficiente para encher as editorias de todos os jornais que circulam hoje pelas mãos dos baianos. Mas estas boas práticas não têm espaço. O olhar (aguçado) dos jornalistas (?) que trabalham nesses veículos são treinados para enxergar apenas mortes, roubos, sequestros, prostituição… Notícia boa? Para eles só quando alguém é preso ou um criminoso é morto. Seja lá como for, o sangue, a tristeza, o medo, o choro precisam estar presentes.

Quando eu estava no segundo semestre do curso de comunicação, tive a oportunidade de trabalhar em um dos principais jornais da Bahia. Agradeci, sob o argumento de que precisava ganhar mais experiência. Menti. Reconheço que minha recusa tinha em sua essência alguns resquícios de estudante-de-jornalimo-que-sonha-mudar-o-mundo. Eu não via (e ainda não a vejo) a bendita da comunicação social propriamente dita nas palavras impressas naquele papel caro. Isso tem feito com que eu não me arrependa das escolhas tomadas.

Eu ainda acredito que um dia experiências como a do Coletivo Regional Juventude e Participação Social, grupo organizado de jovens que atua no semiárido baiano, terá espaço na capa destes jornais. O trabalho é inteligente, envolve direta e indiretamente mais de dois mil jovens de 25 municípios. O que eles fazem por lá muita gente grande não sabe fazer por aqui. Há, apesar de raras, como se sugere, as exceções. Volta e meia encontramos uma alegria perdida em alguma página de um ou dois jornais. Nada mais.

Os jornais têm o poder de influenciar o que será lido por crianças, adolescentes e jovens, e contribuir para uma formação sadia. Então por que não apresentar-lhes no cardápio opções saborosas, que contribuirão para uma boa digestão?

Para se fazer um jornalismo melhor, mais social, não é necessário esconder a realidade, mas ao menos apresentá-la por completo. Posso, um dia, pagar caro por estas palavras, mas esse hoje é meu pensamento, a minha consciência. E vale ressaltar que o que penso ou estas palavras que vos escrevo nunca ocupará as páginas caras desses jornais. Não necessariamente porque não tem sangue, mas pelo risco que ela oferece de educar.

Josevaldo Campos

segunda-feira, 19 de março de 2012

O poder mobilizador e de transformação da comunicação

No início de novembro de 2011, estive em Camamu, cidade localizada no Baixo Sul da Bahia, para passar a adolescentes e jovens rurais noções de comunicação, com foco na produção de jornal. A proposta era simples, porém desafiadora: fazer com que aqueles meninos e meninas aprendessem o ofício e, o mais importante, fossem motivados a continuar o trabalho nas comunidades onde moravam.

Para muitos deles, era o primeiro contato com o computador. Então falar-lhes sobre gêneros jornalísticos, editorias, lide, linha editorial, elementos textuais e gráficos e pirâmide invertida constituía uma missão ousada. Além do jornal, eles tiveram contato com as linguagens de fotografia, rádio e internet. E saíram empolgados. A semente havia sido plantada.

Eles vinham de comunidades rurais, assentamentos e quilombos. Lugares longes e de difícil acesso, prato cheio para desistirem e continuar onde estavam. A desculpa, afinal, estava armada! Durante a oficina, o desafio de parar, pensar e listar sobre o que eles queriam falar sobre cada comunidades, numa verdadeira reunião de pauta, foi enriquecedor. Isso porque, depois de escrever sobre os pontos fracos e fortes de cada localidade, muitos deles acabaram por descobrir as belezas que os cercam ou as mazelas que precisam ser superadas. A valorização e o compromisso com a herança cultural e a natureza da região foi, talvez, o legado mais importante, e por que não dizer, mais emocionante do aprendizado.

Em fevereiro desse ano, uma mensagem de celular foi o bastante para provar o poder mobilizador e transformador da comunicação. Em uma das comunidades participantes, uma semente havia brotado. Nascia “A Voz da Juventude”, um jornalzinho experimental criado pelos novos comunicadores, e que vinha com o verdadeiro espírito da comunicação social: levar informação, divulgar, valorizar e respeitar as diversidades.

Para se chegar até a comunidade do Barroso não é fácil. A estrada é irregular e, se chover, fica praticamente inviável. Mas a paisagem exuberante e a vontade de reencontrá-los foram vencendo as dificuldades. Durante dois dias, levamos mais informações sobre foto e jornal, e eles, em troca, nos deram a grande oportunidade e experiência de viver a comunidade e de conhecer as belezas naturais, além de relembrar um sentimento quase extinto nos grandes centros: a gentileza.

A chegada da chuva anunciava, tristemente, o fim das atividades e que era hora de ir embora. Do contrário, poderíamos ficar por ali mais alguns dias, o que, evidentemente, não seria nenhuma má ideia da sagrada natureza. Somente quem esteve por lá sabe o que significa ver a simplicidade de seu Elinaldo, pequeno produtor de cacau e guaraná; a sabedoria incondicional de Ana Célia, a Dra das ervas medicinais; as delícias da culinária e o sorriso tímido, porém verdadeiro e cativante de dona Delza. A garra de dona Maria que, aos 63 anos, ainda trabalha na roça e sobra tempo e simpatia para receber a todos com tanto amor e dedicação.

Mas o melhor de tudo é que estas histórias poderão ser vividas por muito mais pessoas, porque estão contadas, pelos meninos e meninas, no Fala Comunidade, o jornal que eles deram vida, vez e voz, e que agora vai girar, através de uma comunicação democrática e social, marcando um novo capítulo nessa história.

Texto e foto: Josevaldo Campos

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

À procura da honestidade

Quem nunca sonhou com uma casa linda, com jardins impecáveis e uma piscininha para o fim de semana com os amigos? Quem nunca desejou experimentar o conforto de passear pelas ruas da cidade em um carro de luxo? E aquele aviãozinho particular no quintal de casa? E o privilégio de viajar mar adentro numa lancha particular? Na opinião dos meus e dos seus pais, tudo sonho realizável, desde que você trabalhe muito e de forma honesta!

Empenhamos anos de nossas vidas com estudos, trabalho, estudos... Tudo em prol das realizações pessoais e profissionais, e na busca incessante por essa tal felicidade, e vamos renovando nossas energias, alimentando nossas expectativas e aumentando nossas aspirações sempre com as palavras mágicas dos nossos amigos e pais, que nos fazem sempre acreditar que conquistaremos o sucesso, e que todo o esforço e trabalho honesto serão recompensados. Vamos para a escola, para a universidade de transporte público sem qualidade, e voltamos do trabalho para nossa casa modesta, depois de enfrentar horas de congestionamentos. Problemas banais e que serão logo superados, com o resultado dos nossos esforços diários, da nossa luta infinita. E honesta.

Temos o dom natural de perseguir aquilo que é bom e que nos fará feliz. Com exceções, obviamente. Vem-me na memória cenas do filme Em Busca da Felicidade (The Pursuit of Happyness, título original), protagonizado por Will Smith, na pele do persistente (e honesto) Chris Gardner. Ele, pai de família com sérios problemas financeiros, tenta ganhar alguns tostões vendendo aparelhos de raios X que são caros e ultrapassados. E para completar sua sina de homem honesto e trabalhador, sua mulher o abandona, obrigando-o a criar, sozinho, o filho de apenas cinco anos. Mesmo assim, ainda acredita que dias melhores virão. Mas não chegam. Pelo menos no filme!

Volta e meia vemos nos jornais, revistas e TVs homens e mulheres de sucesso, que enriqueceram por mérito próprio, através de muita dedicação e trabalho (honesto?). A lista é grande: empresários, banqueiros, artistas, jogadores, políticos...  Proprietários de mansões, super carros e contas bancárias recheadíssimas em ilhas fiscais paradisíacas, difíceis para qualquer trabalhador honesto e assalariado pronunciar o nome. Então ficamos imaginando quantos anos de estudo e trabalho mais serão necessários para que nós, honestos, conquistamos, se não um pedaço de ilha particular ou um carro de um milhão e meio de dólares, um casa simples e aconchegante e um carro que proporcione mais conforto em viagem. Nos congestionamentos.

Mas, contraditoriamente ao sucesso resultado do trabalho honesto, aquele que nossos amigos e pais sempre nos incentiva a alcançar, a gente vê, nesses mesmos jornais, revistas e TVs, uma fortuna de casos de enriquecimento ilícito, de lavagem de dinheiro (público) e falcatruas das mais inacreditáveis. Assim, nossos “heróis”, donos de fábricas de sonhos para trabalhadores assalariados, mostram, a cada dia, que o caminho do trabalho honesto até a riqueza é coisa totalmente antagônica.

Esses casos corriqueiros e cada vez mais banais de riquezas fraudulentas criam naqueles que sonham em construir um patrimônio pelas vias legais o sentimento de “idiotismo”, porque, um a um, empresários, banqueiros, artistas, jogadores, políticos, eles vão sendo descobertos, deixando a impressão de que todos os bem sucedidos são corruptos, e que, mais cedo ou mais tarde, serão desmascarados.

E o pior é que, no país em que tudo se dá um jeitinho, os atos de corrupção podem passar de exceção para regra. Isso significa que os conselhos dos meus e dos seus pais e amigos podem não só perder totalmente a valia e sentido, mas terem que ser remodelados, atualizados segundo as normas “legais” do enriquecimento ilícito. E o resultado disso será, inevitavelmente, a constituição de uma sociedade totalmente pobre de valores.

Josevaldo Campos

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Carnaval do bicho

Quando se fala em carnaval, a primeira imagem que se faz é de muita felicidade, alegria. Carnaval do Rio de Janeiro, por exemplo, lembra aquelas ornamentações suntuosas das escolas de samba, num desfile milimetricamente organizado, tudo pensado minuciosamente para a composição de uma harmonia rítmica e quase infalível. No entanto, nas últimas semanas quem está ditando o samba-enredo de grandes personalidades do carnaval carioca é a Polícia Federal. O brilho e o colorido de renomadas escolas desabam com as ações da “Operação Dedo de Deus”, que tem colocado na ala das denúncias sambistas de destaque, delegados, ex-prefeitos, guardas municipais, policiais militares e civis, dentre outros que também fazem parte da folia.

Já são dezenas de pessoas presas envolvidas no famoso jogo do bicho. No topo da lista, dançou o presidente da Beija-Flor, Aniz Abraão David, escola campeã do carnaval desse ano, Hélio Ribeiro de Oliveira, presidente da Grande Rio, e Luiz Pacheco Drummond, presidente da Imperatriz Leopoldinense. Essa semana, a PF apreendeu na mansão de Hélio, na linda Barra da Tijuca, bairro da zona oeste do RJ, reduto de milionários, nada menos que R$3 milhões e valor em euros ainda não declarado, mas com certeza o suficiente para muita gente fazer festa. E por falar em Barra da Tijuca, bairro lindo e com uma urbanização que causa inveja a qualquer favela carioca, o local tem escondido muita sujeira.

As prisões acontecem também em outros estados do país, como Pernambuco, Bahia e Maranhão, curiosamente locais em que o carnaval é destaque e a folia corre solta. Coincidência ou não, o fato é que todas as apreensões estão relacionadas com suspeitas de envolvimento no jogo do bicho. Além de muito capital de giro, literalmente falando, jóias e carros de luxo, sem colocar na conta patrimônios como imóveis de luxo, que também devem entrar na fatura.

Nesse samba todo, fica a interrogação de como ficarão essas escolas de samba com os seus principais patronos imobilizados (acredita-se) atrás de grades pálidas, totalmente diferentes do colorido visto no sambódromo.

Josevaldo Campos

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As entrelinhas do caso USP

Impossível não imaginar como seria o tratamento dado pela mídia ao episódio envolvendo estudantes da Universidade de São Paulo (USP), presos por usarem maconha dentro das dependências da instituição, se o evento tivesse ocorrido em alguma universidade do Nordeste. Depois que três jovens foram abordados e conduzidos à delegacia no último dia 27, várias manifestações se sucederam e tem colocado a renomada Universidade no cenário de polícia. São 14 dias de greve, audiências, assembleias e nenhuma definição.

- Baderna e violência.

- Estudantes da Universidade...presos por uso de drogas e atos de vandalismo.

Utilizo as frases acima para representar uma possível escalada de abertura de um jornal nacional, quero dizer, de um noticiário de abrangência nacional, e não, necessariamente, de um Jornal Nacional, com iniciais maiúsculas, caso o episódio tivesse sido aqui, na Bahia, por exemplo.

E para o Sudeste, para a USP, instituição renomada, repito, pelo seu histórico de ostentar dentro dos seus muros, hoje nem tão sólidos, os melhores e mais organizados estudantes do país, exemplos a serem seguidos por todo o Brasil, incluindo, exclusivamente, o Nordeste...

- Universidade Federal de São Paulo.

- Estudantes manifestam contra atuação violenta da polícia.

A inversão de adjetivos e transformação de interpretação de ações é, no mínimo, muito interessante. Uma corrida rápida pelos principais jornais da região onde está situada a USP mostra-nos, de imediato, a escolha cuidadosa no uso de algumas palavras ou expressões, e a quem coube a honra de conjugar verbos com carga negativa.

Dentre tantas construções, chamou-me a atenção para destacar aqui a seguinte frase, postada em um jornal nacional, com iniciais minúsculas, vale relembrar, mas que não vem ao caso citar o nome. “Os estudantes que estão na ocupação não permitem que a imprensa filme ou fotografe as assembleias”. No mínino, essa simples e ingênua frase renderia uma tese sobre as diferenças de semântica entre as palavras “ocupação” e “invasão”, essa última tão naturalmente empregada por alguns veículos grandes de comunicação quando se trata de uma manifestação de movimentos sociais, para exemplificar. Ainda sobre a frase, estranhei não ter suscitado um amplo debate sobre liberdade de imprensa, o que, salvo engano, seria natural pela conduta que se observa da grande mídia diariamente.

Outro debate inevitável, que renderia aí, por baixo, umas duas semanas de assunto para a mídia, e que passou despercebido (penso), seria a partir do e-mail enviado por um estudante à presidente Dilma, onde solicita o lançamento do “Bolsa Maconha”. Ao que me parece, nesse caso, para a mídia, o Bolsa Família, programa do Governo Federal, que deve ter alimentado a imaginação desse estudante, seria positivo. Só nesse caso!

Resta, ainda, os “revolucionários”. Foi o nome mais carinhoso, digamos, que os jornais conseguiram para se referir aos estudantes grevistas, do Sudeste, da USP. Se no Nordeste, vândalos seria, automaticamente, sinônimo. Finalizo estes lances de reflexão com a interrogação de Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp): “Prenderam e levaram para a delegacia um estudante que consumia maconha. Não se pode criminalizar o usuário na rua, mas dentro da universidade pode?”.

Dentre tantas possibilidades de interpretação, uma preocupação é visível nos depoimentos do reitor da USP, João Grandino Rodas: a Universidade de São Paulo tem muito o que preservar  e isso está além de um simples debate de proibir ou não proibir. Ainda há de sair muita fumaça dessa história.


Josevaldo Campos