Na primeira semana oficial de campanha, o candidato ao governo da Bahia pelo PMDB, Geddel Vieira Lima, já mostrou para que veio e como será regida sua campanha. Os muros que foram pintados em Salvador por outros candidatos (deputados, senadores e governadores) foram praticamente todos apagados para dar lugar ao nome do peemedebista. Nas ruas e no meio político, as pessoas comentam não estarem surpresas, alegando que “é uma prática normal de Geddel fazer esse tipo de política”. Geddel, além de sempre estar atrás nas pesquisas, estava atrasado também em relação às pinturas nos muros. Provavelmente bem informado pelo seu coligado João Henrique Carneiro (PMDB), prefeito de Salvador, sobre a intenção de baixar um decreto na cidade proibindo as pinturas, tratou de correr para tentar deixar sua marca. Mas ao que tudo indica o barro não colou, ou melhor, a tinta não grudou, metaforicamente falando. Os comentários nas ruas são os piores possíveis; ninguém em cima do muro.
Josevaldo Campos
sábado, 17 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
Hasta la vista, hermanos!
A vitória histórica e fenomenal da Alemanha sobre a Argentina teve um gostinho brasileiro. Explico: como os argentinos sempre são nossos maiores rivais, a vitória expressiva da Alemanha, de goleada, trouxe-nos um sabor de vitória muito parecido com o que se o Brasil estivesse em campo. Maradona ficou absolutamente sem espaço para ousar dizer “somos melhores que os brasileiros”, pelo contrário, a derrota por goleada de 4 x 0 coloca os hermanos em desvantagem em relação a nós brasileiros, que perdemos por 2 x 1, visivelmente um jogo muito mais difícil.
Pode parecer exagero, mas agora sinto como se o Brasil tivesse sido campeão, porque a derrota da Argentina não significa apenas um resultado negativo para a partida, mas também a vitória da humildade de Dunga contra a arrogância de Maradona. Vejo Dunga exclamando para Maradona:
- Diego, hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamas!
E cabe uma piada: mesmo que a Argentina tivesse perdido por apenas um gol, o Brasil estaria na frente. Por quê? Simples, porque o Brasil partiu primeiro da África do Sul de volta para casa.
Pode parecer exagero, mas agora sinto como se o Brasil tivesse sido campeão, porque a derrota da Argentina não significa apenas um resultado negativo para a partida, mas também a vitória da humildade de Dunga contra a arrogância de Maradona. Vejo Dunga exclamando para Maradona:
- Diego, hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamas!
E cabe uma piada: mesmo que a Argentina tivesse perdido por apenas um gol, o Brasil estaria na frente. Por quê? Simples, porque o Brasil partiu primeiro da África do Sul de volta para casa.
“Hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamas!" Há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura) Che Guevara
Josevaldo Campos, meio brasileiro, meio alemão!
Josevaldo Campos, meio brasileiro, meio alemão!
sexta-feira, 2 de julho de 2010
A Metáfora de Dunga. Parte II
Para começo de conversa, Dunga foi um herói! Isso mesmo! E sem demagogias, um exemplo para cada brasileiro. Estou convicto de que tudo que estava ao alcance para tornar a Seleção Brasileira hexacampeã foi feito, com determinação e humildade, o que é mais importante. O que a mídia usurpadora vem dizendo, não importa! Para esses boatos, Dunga soube dar respostas de forma brilhante.
Felizmente ou infelizmente, alguém teria que ganhar, e o outro, perder. Era elementar. Nosso sonho era grande e nossas esperanças motivadoras. Mas tudo continua! Agora meus votos com a saída de Gana é que algum país da América do Sul saia vitorioso. E isso vale para a Argentina também, claro! Que venha 2014 porque somos brasileiros e não desistimos nunca! Valeu Brasil, valeu Dunga!
Josevaldo Campos
terça-feira, 29 de junho de 2010
Chuvas. O que elas significam?
Curiosa a sequência de fortes chuvas que vem acontecendo em alguns estados brasileiros. Especialistas tentam encontrar nas ciências alguma explicação plausível para os acontecimentos, mas no fundo, eles não têm certeza exatamente do que acontece com a natureza, ou o que a natureza tem feito acontecer. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia... 2010 começou com muita chuva, cenas surpreendentes proporcionadas pela natureza. Muitos deslizamentos, mortes, desabrigados, famílias completamente ilhadas, sem saber para aonde ir nem o que fazer. Prefeitos e governadores sem saber por onde começar a reconstruir as cidades atingidas. E nós, daqui de frente da televisão, imóveis, sem a certeza se no dia seguinte acordaremos com o sol do verão ou se seremos carregados sem destino pelas correntezas violentas. Agora parece ter chegado a vez de Pernambuco e de Alagoas. Em meio aos mais de 57 mortos, os estados vizinhos tentam sobreviver, buscando se apegar onde ainda possa haver alguma possibilidade de escapar, onde ainda haja algum sinal de esperança.
Não é fácil ver as pessoas chorando desesperadamente, vendo móveis, casa, filhos debaixo d’água. São sonhos, trabalho, vidas indo embora com a lama. E diante de todo esse sofrimento, diante das lágrimas, dos milhares de milímetros de água que cai e leva consigo tudo que encontra pela frente, diante das infinitas dúvidas e da total ausência de certeza a respeito do que pode estar acontecendo, uma pergunta, inevitável, deve soar na mente de muita gente: qual será o próximo estado?
Não apostaria que a ciência é capaz de prever. Mas acredito que no meio de tudo isso a natureza quer, no mínimo, nos dar um recado. Sábios serão aqueles que conseguirem entender. Eu, por enquanto, vou tentando economizar água, não jogando lixo nas ruas, não poluindo as águas... Na dúvida, é melhor não arriscar. Abra o olho!
Josevaldo Campos
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Desiguais, mas nem tão diferentes
Sabe, eu gostaria de ter uma conversa com você, especialmente você que mora nos bairros de classe média e alta, que vive cercado por muros e grades, com toda a sua segurança. Queria saber o que você tem pensando sobre os constantes assaltos nessas regiões privilegiadas.
Uma das coisas que te faz optar morar por aí é (era) a ausência de assaltos, certo? Então agora quando vejo nos meios de comunicação notícias de que essas muralhas têm sido invadidas, que as ruas pavimentadas com mármore não estão mais tão intactas, questiono-me qual deve ser o pensamento de vocês que, não importando como, conseguiram morar por aí. Minha aposta é no discurso de que as pessoas que estão tirando vossa paz vêm das periferias, das favelas, são os negros... Pois bem, tomemos, por parte, esse possível argumento e pensemos no seguinte. Não é nenhuma novidade e se vê até em novela da Globo que jovens abastados mantêm o vício nas drogas com mesadas que recebem dos pais e, quando a situação já está fora de controle e a grana curta, roubam as coisas de casa, vendem pequenos objetos de valor de uso próprio e da família para sustentarem o vício. Pergunta: o que vocês acham que estes jovens fariam se não tivessem alguma forma de conseguir dinheiro dentro de casa?
Do outro lado da história, mais famílias, outras vidas, drogas. Dessa vez, sem mesada, sem objetos de valor e alguns trocados negociados por um trabalho árduo, muitas vezes desumano. Pergunta: como estas pessoas manterão o vício?
É curioso o fato de a polícia invadir o barraco do pobre, mas não ousa tocar na mansão do bacana. Escala fácil as escadarias do morro, mas é incapaz de subir os elevadores de quem mora no asfalto. Chega a ser uma contradição se pensarmos no alto custo que é para manter certos tipos de drogas e onde a polícia costuma fazer as apreensões. Estão enganados pensando que somente nos morros são feitas as grandes negociações. Não acredito nas estatísticas que jogam nas costas dos negros, dos pobres e moradores de bairros populares a culpa pela manutenção do tráfico de drogas no país.
Solução? Se você for capaz de responder as perguntas feitas acima de forma sensata, está com o poder nas mãos. Tente.
Josevaldo Campos
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Morre um delegado, nascem algumas reflexões
É desumana essa mania que algumas pessoas têm de superfaturar em cima de um caso, de uma notícia, espremer pra ver se sai o que não tem. O assassinato do delegado Clayton Leão, de Camaçari (BA), cidade vizinha a Salvador, é a “bola da vez”. A primeira decepção ao ler os principais jornais, sites e blogs que noticiaram sobre o trágico caso é perceber o despreparo de muitas fontes, a maioria delas de entidades / organizações oficiais ligadas à polícia. Muito fácil - e cômodo - dizer que a segurança pública está mal, que o governo não dá a atenção devida aos policiais, que esta tragédia reflete o descaso das autoridades etc e tal. Isso qualquer um pode fazer, sem esforço algum. Quero ver, meus amigos, vocês proporem soluções, mostrar caminhos que sejam capazes de extinguir a violência em quatro, seis ou dez anos.
Fico aterrorizado quando ouço alguém dizer que a situação está tão delicada que até a própria polícia está sendo vítima. E daí? É o mesmo ponto de vista que diz que ladrão é negro e vem das periferias? Quero ver essa discussão também quando um policial que deveria zelar pela segurança e promover a cidadania se envolve em corrupção, maltrata um cidadão porque a cor da sua pele é escura, não lhe garante o direito de fala porque sua origem é pobre, da favela.
Ninguém, absolutamente, se propõe a fazer uma análise mais coerente do ocorrido, pensar que a violência só poderá ser exterminada de forma sistemática, porque demanda um processo dinâmico de investimento em educação, emprego, saúde, lazer... Mas esse tipo de discurso, de entrevista, não dá ibope. Então as pessoas espetacularizam mais uma tentativa de assalto com vítima como se fosse o primeiro da história, pelo fato de se tratar de uma autoridade policial, e tiram proveito pessoal e político da história.
Não quero com isso dizer que barbaridades são normais, nada disso. Quero apenas ver seres pensantes, que contribuam de alguma forma para o combate à violência, de todos os tipos, que tenham a capacidade de entender a dimensão do problema e que esse tipo de violência não nasceu apenas nos últimos anos. Procurar culpados não funciona.
O que me preocupa - e essa precisa ser a preocupação de todos - é como a criança que hoje nasce de uma mãe-criança será educada; quais serão suas referências de valorização da vida. Preocupa-me como combateremos o racismo, que tanta indignação e revolta causa nos corações de tantos seres humanos. A mudança não é simples. Construir um futuro mais pacífico requer, antes de tudo, amor pelo próximo. Respeito. Atitudes simples podem fazer uma grande diferença. Perca, ou melhor, ganhe vosso precioso tempo conversando com um menino que hoje ainda brinca inocentemente; seja solidário com as pessoas, como puder. Seja prudente nas suas palavras, nas suas ações. Contribua com a construção de um mundo melhor. Se combater a violência dependesse apenas de governo, países que historicamente são considerados excelência em modelo de gestão estariam isentos destes acontecimentos. Pense nisso enquanto ainda há tempo. Pense nisso enquanto seu filho, seu irmão ou vizinho ainda pode aprender as coisas boas, a importância da vida e da valorização do ser humano.
Josevaldo Campos
Josevaldo Campos
domingo, 16 de maio de 2010
A metáfora de Dunga
Eu sempre defendi que os melhores jogadores de futebol em campo são aqueles que ainda vislumbram um universo para conquistar. Os famosos, embora experientes, passaram da fase do “vale tudo”, da fase futebol-com-o-coração. Ronaldinho Gaúcho e Adriano ficaram de fora da lista para o Mundial em junho. Então se você me perguntar: “Mas e o Robinho”? Certo, Robinho também parece já ter alcançado o topo da fama, reconhecimento internacional, mas não dá para comparar a vontade de jogar, de vestir a camisa da Seleção, de Robinho com o Gaúcho, por exemplo. Neymar? Dunga foi prudente. Montar uma equipe para disputar um campeonato internacional não é tarefa que se faz em poucos meses e nem se decide de um dia para o outro. É um trabalho longo, de testes e mais testes. Como têm dito os vários técnicos Brasil afora, “em 2014 ele joga, será a vez dele”.A decisão de Dunga é muito coerente. É uma lição não só no futebol, mas para a vida. Sem estrelismo e amadorismo, sem falsas-modéstias. O que está em jogo é um trabalho de equipe, resultado de um esforço construído dia após dia, metodologicamente. “Eu tenho que ganhar hoje. A cobrança em cima de mim é hoje, não para 2014”, resumiu dunga durante a coletiva que anunciou o nome dos 23 integrantes que defenderão a Seleção Brasileira de Futebol.
Sorte Dunga, sorte Brasil!
Josevaldo Campos
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sábado, 8 de maio de 2010
PERFIL - Perinho Santana, o poeta que constrói livros nos muros de Plataforma
Marcamos de nos encontrar às 14h30, no mais tardar às 15. Apareci nas proximidades onde ele mora e caminhei sem uma direção muito certa, tentando identificar alguma pista que indicasse onde ele morava. Nunca o tinha visto antes. Aproximava-se das três horas da tarde e o sol estava muito forte. Tinha medo que eu me atrasasse para nosso encontro, tão bem re-confirmado por ele no dia anterior. Ele havia me telefonado, do seu próprio celular.Continuei andando, na esperança de encontrar algumas de suas marcas pelos muros. Ele não é tão conhecido onde mora. "Você vai direto e pergunta ali naquele bar que eles sabem te informar melhor". Segui as pistas, sentindo que estava cada vez mais próximo. Notei que meu coração estava acelerado um pouco além do normal para um fim de tarde de sábado ensolarado. Identifiquei um centro social que ele havia dado como ponto de referência. Estava chegando a hora. "Antes de passar o segundo quebra-molas, à direita, tem um beco. Ele mora ali".
Assim fui informado no bar, cujas paredes estavam decoradas com muitas poesias. Chegaria atrasado para o nosso encontro, com certeza. Pelo menos podia me desculpar, dizendo que perdi um longo tempo tentando encontrá-lo. Não tive coragem de ligar e dizer que eu estava perdido. Entrei no beco e logo perguntei a uma garota se ela o conhecia. Caminhei, tenso, na direção indicada. Sentado numa janela mal acabada, barba mal conservada, estava um senhor, aparentando 50 anos. Hesitei em lhe falar e segui, lentamente, sem rumo. Voltei. Não era ele. "Ele mora ali, naquela última casa".
Foi assim que conheci Péricles Bonfim de Santana, conhecido como Perinho Santana, o poeta que escreve seus pensamentos nos muros sujos e que ganham vida pelas ruas de Plataforma, bairro popular da grande cidade de São Salvador.
Quarenta e seis anos, olhar cabisbaixo e cansado. Perinho escreve poesias nos muros do bairro onde mora desde 1999. Ele tinha uma lanchonete e precisava mudar os preços expostos na parede todos os meses. Resolveu ir além dos números e começou a escrever seus pensamentos e sentimentos. "Eu pegava e fazia umas poesias e mandava as pessoas fazerem os desenhos; na época, eu não sabia nem pintar".
Suas poesias falam de coisas que existiam no passado, de seus amigos, das pessoas que moravam no bairro, da localização e da importância de Plataforma para a Independência da Bahia, de ecologia... "Eu procuro contar uma história verdadeira que eu próprio posso explicar a uma pessoa que venha a mim", esclarece.
Perinho é um homem simples, muito simples. Vive numa pequena casa de três cômodos, no final de um beco, localizado numa rua que ele parece ter escolhido a dedo: Rua Rosa dos Reis. Tem uma sala que serve de cozinha e um quarto que também serve de sala. Nas paredes, uma mistura de cores e palavras dá vida ao ambiente, todo decorado com poesias e pinturas dele.
Ele sabe, como ninguém, viajar nas ideias. Roda o mundo em minutos e sempre aterrissa na religião. Nasceu no dia 24 de dezembro, cinco minutos antes de Cristo. Mas é ateu e tem pavor ao cristianismo. "Hoje, se eu fosse buscar uma religião, era para procurar o calor humano, as pessoas que não bebem, não fumam... O bar é a igreja dos católicos".
Perinho tem profunda mágoa e decepção dos tempos em que frequentava a igreja católica. As milhões de dúvidas que rondam sua cabeça, segundo ele, deveriam ser explicadas pelos ortodoxos. "Desde menino que as pessoas falavam assim: 'as palavras de Deus', e eu dizia: Ah, se eu não conheço as letras de Deus, como vou conhecer as palavras de Deus?"
Essa dúvida fundamentaliza uma de suas principais teses. Perinho acredita que a letra "D" foi santificada e que as demais foram amaldiçoadas. É como se a humanidade trabalhasse apenas com essa letra: Deus, dinheiro, dívida, débito, dor, desastre. Ele também acha que o nome de Deus deveria ser ALA, sem a letra "H". Por quê? Segundo ele, dentro da letra "L" há uma letra "A". "Veja as palavras que estão debaixo da letra A: alegria, amor, anjo, altura..." E continua: "A=1; L=11, logo, precisou-se de apenas um número para formar o nome de Deus", conclui.
Perinho Santana não tem mais que 1,65m, ostentado num corpo aparentemente magro e frágil. Tem uma voz calma e, apesar de acreditar que quem pensa em Deus pensa em eternidade, coisa que ele não quer, acredita no Homem. "Deus é uma pessoa única, que só cria coisas únicas, que não tem filhos e que não aparece para nós". Perinho tem um filho de vinte anos. Já fez um livro nas paredes de Plataforma: 314 páginas. Sente não ter registrado em papel todas as poesias escritas, pois muitas delas já foram apagadas ou pinchadas dos muros.
Infância, presente e futuro - Pergunto-lhe se o Perinho criança era um aluno exemplar, bom em português, e ele, sem pestanejar. "Eu, como estudante, era bastante inteligente. Eu já lhe digo isso porque não é pela inteligência em si, é pelo esforço que eu fazia para estudar. Eu era bem mais destacado em química e matemática. Eu me formei em química, na verdade. O português eu não era muito chegado, não. Eu tinha um professor, Afonso, e era aquele cara que trabalhava mais na base do exercício, depois corrigia. Eu tive uma professora na sexta série, de português, que eu gostei muito, ela me desenvolveu muito com advérbios, com verbos, e aí minha linguagem ficou extensiva", lembra.
Perinho, além de não se identificar muito com o português, nunca leu clássicos da literatura brasileira ou estrangeira. Apenas agora tem lido alguns de filosofia, área em que pretende se aprofundar. "O último livro que eu li foi O Mundo de Sofia", acrescenta, mas sem o orgulho de ter lido um dos maiores clássicos da literatura.
A razão para ele nunca ter lido, além de não ser chegado em leitura, era porque não queria que nada o influenciasse, pois tudo tinha que vir de sua cabeça. Essa também é a razão pela qual ele nunca escreve sobre o que as pessoas pedem ou falam. E não é que tem rendido? Assobiando Pelos Caminhos de Plataforma. Esse é o nome do livro de poesias que está montando, por enquanto, em seu caderno de anotações para depois, quem sabe, ser publicado.
Perinho Santana, ao contrário de muitos poetas e artistas que buscam um local específico para a inspiração, não tem frescuras. "Às vezes eu estou na rua e vem aquela frase e eu fico doido pra saber qual é o texto; então, quando eu chego em casa, vou escrever". Além de poeta, Perinho é pintor. E não gosta de tinta. Quando acaba um desenho, vai para casa correndo, sem olhar para trás, para lavar as mãos e tomar um banho; depois volta ao local do desenho e fica olhando, como se fosse alguma pessoa que estivesse simplesmente passando e resolveu admirar.
O poeta dos muros é um homem de muitas teses. Só concluiu o segundo grau, mas é um rapazinho de idade muito prendado. "Olhe, não se perca, não, porque eu sei é de coisa", aconselha-me com um sorriso longo, triste e cansado, logo após concluir uma de suas palestras, na qual defendia que o homem aprendeu a falar a partir dos animais, "miau", "au, au" e depois foi se lapidando.
As pinturas que Perinho faz para ilustrar suas poesias sempre envolvem a natureza. Algumas constituem verdadeiras obras abstratas. Alguns de seus trabalhos falam de Deus, apesar de tudo. E não terminam suas teses, suas teorias sobre a vida do criador. "Você ouve todo mundo falar: antes de Cristo e depois de Cristo. Cadê o meio de Cristo? Como é que pula do A pro D? Cadê o MC?"
Perinho mora sozinho há muitos anos e é divorciado. Teve uma depressão neurótica quando trabalhava com computadores. Pretende, em breve, mudar-se para o bairro do Bonfim, para morar com a mãe. Apesar de todo o talento, não pretende ganhar dinheiro com o seu trabalho. Não gosta de escrever por obrigação, diz.
Certa vez, conta, ficou de fazer um trabalho para a Caixa Econômica, mas que não ficaria com o dinheiro. "Eu investia tudo em tinta", disse.
Perinho é um ser humano, humilde. Muito receptivo e educado com quem se achega ao seu simples lar. Mostrou-me uma frase no banheiro que, ironicamente, agradece a visita ao local. Fui apresentado a toda a sua residência, num processo que não demorou muito. As poucas paredes que existem são repletas de poesias e pinturas. É como estar dentro de um livro multicolorido.
Perinho Santana, o poeta da natureza, da vida, da saudade de seus amigos, dos heróis que Plataforma já teve, escreve para os mais jovens, como faz questão de sempre dizer. O poeta dos muros ia até ganhar uma praça com seu nome, mas acabou ficando no nome de um senhor que havia falecido, a pedido do próprio Perinho. Pergunto-lhe sobre o reconhecimento de seu trabalho e ele cita uma placa de mérito cultural que ganhou. Ele não liga muito para essas coisas, pensei, e logo confirmei. "Eu escrevo para contar para os mais jovens tudo que eu vi", reforça.
"É tão bom você pegar uma parede toda suja, trabalhar e trabalhar... depois as pessoas passam e vêem uma frase...", orgulha-se.
Confesso que não pude fugir do clichê. - "Quem é Perinho Santana?"
"É uma pessoa humilde, que mora em Plataforma, o mesmo de sempre, que é parabenizado por uns pelo trabalho que faz e por outros é tratado como doido". Encerrei a gravação. O coração antes acelerado pela ansiedade do encontro agora cedia lugar a uma admiração gostosa. Suas palavras contavam muito mais do que a história de um homem-artista.
Senti que ele era muito frágil quando apertei sua mão. Eu tinha de ir. Ele, gentilmente, acompanhou-me até a saída. O céu estava escuro. "Vai chover", arrisquei, sem querer ir embora. Mas ele estava preocupado comigo. Apertamos novamente as mãos e ele me agradeceu, antes mesmo que eu o fizesse. Segui. Foi assim que conheci Péricles Bonfim de Santana, um poeta que escolheu os muros das ruas como páginas de seus livros.
"Na minha terra tem palmeira
Onde o trem passa por lá
De frente para a Ribeira
Havendo divisa com o mar".
Perinho Santana
Perfil produzido em 2008 para um trabalho da faculdade
sexta-feira, 30 de abril de 2010
A fé que remove montanhas é a mesma que arrecada moedas?
Ainda meio sonolento, acordei com o barulho da sua voz. Ele falava da época em que entrava nos ônibus para assaltar, para matar, pegar as coisas das pessoas. Suas palavras oscilavam entre coisas boas e ruins. Foi assim a maior parte de minha viagem, num desses dias quase monótonos de ida para o trabalho. Quando acordei (detesto que interrompam meu sono, mesmo que no ônibus), ele já pregava o evangelho segundo... Segundo ele mesmo, na maioria das vezes!Na medida em que ele ia explicando sua história passada, marcada por delitos, evocava o nome de Deus e intimava as pessoas a concordarem com as palavras bíblicas, narradas com um português ainda depreciado pela vida mundana. As pessoas, meio perplexas, não sabiam muito o que fazer. “Levanta as mãos aqueles que acham que Deus merece”, dizia ele, entoando a voz. “Levanta as mãos pessoal”, insistia, já praticamente gritando, ao perceber a falta de atenção das pessoas. “Tem homem aqui que levanta as mãos até pra bater na mulher em casa, mas não levanta para bater palma para Deus”, apelava.
Ele não desistia. “Quando eu entrava nos ônibus pra assaltar e mandava alguém levantar o braço, aí num instante todo mundo levantava. Hoje eu peço pra levantar o braço pra Deus e ninguém levanta!” Ele se aproximava de algumas pessoas e se dirigia diretamente a elas: “Levanta a mão. Bate palma. Bate palma quem acha que Deus merece!” Uma jovem que estava ao meu lado já levantava suas mãos e batia palma. Na frente, outra. Muitas pessoas (mulheres) já batiam palmas e respondiam, quando indagadas, “Amém!”, num coral triste.
Quando eu olhava ao redor, no rosto das pessoas, sentia que elas carregavam uma aflição típica do medo. Notei que elas não sabiam exatamente por que batiam palmas e levantavam suas mãos. “Eu vou encerrar...” Tranquilizei-me, mas só por uns segundos. Ele voltava a falar e contar detalhes da sua vida, dos crimes cometidos, de sua vivência na penitenciária atualmente, que retornaria para lá no final da tarde e que os outros presos sempre lhe pede para levar alguma coisa, uma pasta de dente (creme dental), um biscoito... “Eu vou encerrar, mas antes...” E voltava a contar como assaltava os celulares das pessoas, ironizava com alguém que aparentemente estava dormindo e não prestava atenção ao seu culto. “Quando eu entrava e alguém tava dormindo, eu ia assaltando e quando a tia acordava e dizia ‘o que é isso? ’, eu respondia: isso é um assalto tia e eu tava esperando a senhora acordar pra pegar seu celular”. Algumas pessoas se entreolhavam; outras riam cautelosamente.
Eu anotava, pacientemente, cada palavra, em inglês, para evitar que a fiel ao meu lado pudesse me entregar. Não era bem medo, mas eu estava meio assustado, surpreso com a situação. Cheguei a vacilar sobre meu direito de escolha, ao me constranger por não estar levantando os braços, muito menos aplaudindo fosse lá o que for.
Ele, para não perder a prática, começou a pedir dinheiro, mas dessa vez sem arma. Melhor dizendo, pedia ajuda para levar para os demais detentos, usando como “arma” apenas as palavras. Uma ou duas pessoas deram algumas moedas. “É verdade. Antes eu entrava, apontava uma arma e todo mundo logo me dava o dinheiro”. Naquele momento, pensei ser prudente eu pegar minha carteira e entregar algum dinheiro. Hesitei. “A Bíblia diz não à violência e sim ao amor”. Aumentaram as doações. “O Senhor é meu pastor e nada me faltará, amém?”, perguntou. “Amém, gente?", gritou. “Amém”, respondeu, prontamente, o coral.
Ainda não era tudo. Meu sono já havia ido embora, totalmente, o que é difícil de acontecer. Eu já havia guardado meu bloco de anotações, certo de que as arrecadações em nome de Deus para ajudar os irmãos da cadeia eram o suficiente e o último capítulo da história. “Para finalizar...”, repetia, sem mudar uma só palavra. “Você vai tocar no ombro do irmão que está do seu lado...” Eu, na hora, exclamei uma só palavra, para mim mesmo, mas que, infelizmente, terei que aqui censurá-la. Não acreditei na cena. “Espero que essa menina não toque em mim”, pensei. Em vão! Quando ele terminou de proferir a mensagem a ser passada através do toque, ela já estava ultrapassando o espaço que me é de direito do meu assento, colocando sua mão sobre meu ombro. Não consigo pensar numa só palavra para descrever a cena, tamanha a unicidade do ato, para não dizer outra coisa. Mantive os olhos nas minhas anotações e consenti despretensiosamente com alguma coisa que ela me disse, para não ser de todo grosseiro. Talvez ela não tivesse escolha naquele momento. Ele, finalmente, desceu e desapareceu. Fiquei com a impressão de ter acabado de passar por um assalto, à mão armada.
Eu acredito em Deus, mas o caminho, definitivamente, não é esse!
terça-feira, 27 de abril de 2010
MST, Vale-Gás, Bolsa Família e a Falta de Conhecimento
Acabei de achegar no trabalho, atrasado, mas precisava escrever, desabafar.Há mais ou menos oito dias cerca de 5 mil militantes do MST- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – estão marchando de Feira de Santana para Salvador, 112 km. O objetivo é lembrar o massacre de 19 trabalhadores em Eldorado de Carajás (PA), ocorrido em 1996, e também para entregar ao INCRA e a Secretaria de Agricultura da Bahia suas reivindicações.
Pois bem, desde ontem, 26/04, pego alguns engarrafamentos na capital baiana com a chegada dos militantes. Nenhuma novidade, apenas algumas queixas banais dos passageiros, a cidade já anda um caos, parada. Hoje, no entanto, no ônibus, sentei-me à frente de uma jovem mulher, que me obrigou a sentar imediatamente diante desse computador e compartilhar com vocês, leitores, esse desabafo.
Ela, ao passar pela marcha do MST, começou a resmungar, chamando os militantes de “vagabundos”, “sem quifazer” e o mais que ela lembrou no momento. Fiquei decepcionado, porque eu esperava que ela fosse, no mínimo, capaz de fazer uma análise mais coerente, que justificasse, se não toda a sua opinião, os verbetes negativos. Nada! As coisas pioraram. Ela, do nada, começou a falar de Vale-Gás, Bolsa Família, Lula, Dilma, dizendo que estes programas só serviram para acomodar o povo... etc e tal! Ouvir aquilo foi o mesmo que estar assistindo ao Jornal Nacional e tantos outros programas que visam distorcer qualquer tentativa de ação positiva do governo para as classes mais carentes. Eu sabia que naquele momento eu tinha o dever de, nos minutos que me restavam para chegar ao meu ponto, tentar esclarecê-la, mostrar-lhe que o seu julgamento estava equivocado. Fui fraco. Calei-me diante do seu convicto desconhecimento. Preferi acreditar que ela nunca passou fome, nunca precisou de um metro quadrado de terra para plantar a única esperança de comer e não fazia ideia do que era pedir o botijão de gás do vizinho emprestado para terminar de cozinhar o feijão.
Desci triste do ônibus. Triste por ter ficado calado, triste por não entender por que as pessoas não procuram se informar, sair da posição de comentarista superficial, entender que há problemas sociais e que todos nós temos nossa parcela de culpa. Aquela mulher, visivelmente, não sabia o que significa a Reforma Agrária e não sabe quantas pessoas ainda passam fome no país. Ela certamente nunca visitou um assentamento na sua vida, desconhece os diversos projetos de agricultura familiar e ignora o trabalho do Movimento e a produção de alimentos que este é responsável. E o que é pior; ou melhor, deve estar se alimentando diariamente com produtos provenientes dos assentamentos.
Gostaria tanto que ela doasse só uma daquelas dóceis palavras direcionadas ao MST para os empresários da cidade onde ela mora, para os donos das empresas de ônibus, para a prefeitura, pois são estes que todos os dias a faz esperar, horas, calada, por um transporte ineficiente, caótico. Todos os dias, repito. E a marcha do MST é uma vez por ano!
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