quinta-feira, 27 de maio de 2010

Morre um delegado, nascem algumas reflexões

É desumana essa mania que algumas pessoas têm de superfaturar em cima de um caso, de uma notícia, espremer pra ver se sai o que não tem. O assassinato do delegado Clayton Leão, de Camaçari (BA), cidade vizinha a Salvador, é a “bola da vez”. A primeira decepção ao ler os principais jornais, sites e blogs que noticiaram sobre o trágico caso é perceber o despreparo de muitas fontes, a maioria delas de entidades / organizações oficiais ligadas à polícia. Muito fácil - e cômodo - dizer que a segurança pública está mal, que o governo não dá a atenção devida aos policiais, que esta tragédia reflete o descaso das autoridades etc e tal. Isso qualquer um pode fazer, sem esforço algum. Quero ver, meus amigos, vocês proporem soluções, mostrar caminhos que sejam capazes de extinguir a violência em quatro, seis ou dez anos.

Fico aterrorizado quando ouço alguém dizer que a situação está tão delicada que até a própria polícia está sendo vítima. E daí? É o mesmo ponto de vista que diz que ladrão é negro e vem das periferias? Quero ver essa discussão também quando um policial que deveria zelar pela segurança e promover a cidadania se envolve em corrupção, maltrata um cidadão porque a cor da sua pele é escura, não lhe garante o direito de fala porque sua origem é pobre, da favela.

Ninguém, absolutamente, se propõe a fazer uma análise mais coerente do ocorrido, pensar que a violência só poderá ser exterminada de forma sistemática, porque demanda um processo dinâmico de investimento em educação, emprego, saúde, lazer... Mas esse tipo de discurso, de entrevista, não dá ibope.  Então as pessoas espetacularizam mais uma tentativa de assalto com vítima como se fosse o primeiro da história, pelo fato de se tratar de uma autoridade policial, e tiram proveito pessoal e político da história.

Não quero com isso dizer que barbaridades são normais, nada disso. Quero apenas ver seres pensantes, que contribuam de alguma forma para o combate à violência, de todos os tipos, que tenham a capacidade de entender a dimensão do problema e que esse tipo de violência não nasceu apenas nos últimos anos. Procurar culpados não funciona.

O que me preocupa - e essa precisa ser a preocupação de todos - é como a criança que hoje nasce de uma mãe-criança será educada; quais serão suas referências de valorização da vida. Preocupa-me como combateremos o racismo, que tanta indignação e revolta causa nos corações de tantos seres humanos. A mudança não é simples. Construir um futuro mais pacífico requer, antes de tudo, amor pelo próximo. Respeito. Atitudes simples podem fazer uma grande diferença. Perca, ou melhor, ganhe vosso precioso tempo conversando com um menino que hoje ainda brinca inocentemente; seja solidário com as pessoas, como puder. Seja prudente nas suas palavras, nas suas ações. Contribua com a construção de um mundo melhor. Se combater a violência dependesse apenas de governo,  países que historicamente são considerados excelência em modelo de gestão estariam isentos destes acontecimentos. Pense nisso enquanto ainda há tempo. Pense nisso enquanto seu filho, seu irmão ou vizinho ainda pode aprender as coisas boas, a importância da vida e da valorização do ser humano.

Josevaldo Campos

domingo, 16 de maio de 2010

A metáfora de Dunga

Eu sempre defendi que os melhores jogadores de futebol em campo são aqueles que ainda vislumbram um universo para conquistar. Os famosos, embora experientes, passaram da fase do “vale tudo”, da fase futebol-com-o-coração. Ronaldinho Gaúcho e Adriano ficaram de fora da lista para o Mundial em junho. Então se você me perguntar: “Mas e o Robinho”? Certo, Robinho também parece já ter alcançado o topo da fama, reconhecimento internacional, mas não dá para comparar a vontade de jogar, de vestir a camisa da Seleção, de Robinho com o Gaúcho, por exemplo. Neymar? Dunga foi prudente. Montar uma equipe para disputar um campeonato internacional não é tarefa que se faz em poucos meses e nem se decide de um dia para o outro. É um trabalho longo, de testes e mais testes. Como têm dito os vários técnicos Brasil afora, “em 2014 ele joga, será a vez dele”.

A decisão de Dunga é muito coerente. É uma lição não só no futebol, mas para a vida. Sem estrelismo e amadorismo, sem falsas-modéstias. O que está em jogo é um trabalho de equipe, resultado de um esforço construído dia após dia, metodologicamente. “Eu tenho que ganhar hoje. A cobrança em cima de mim é hoje, não para 2014”, resumiu dunga durante a coletiva que anunciou o nome dos 23 integrantes que defenderão a Seleção Brasileira de Futebol.

Sorte Dunga, sorte Brasil!

Josevaldo Campos

sábado, 8 de maio de 2010

PERFIL - Perinho Santana, o poeta que constrói livros nos muros de Plataforma

Marcamos de nos encontrar às 14h30, no mais tardar às 15. Apareci nas proximidades onde ele mora e caminhei sem uma direção muito certa, tentando identificar alguma pista que indicasse onde ele morava. Nunca o tinha visto antes. Aproximava-se das três horas da tarde e o sol estava muito forte. Tinha medo que eu me atrasasse para nosso encontro, tão bem re-confirmado por ele no dia anterior. Ele havia me telefonado, do seu próprio celular.

Continuei andando, na esperança de encontrar algumas de suas marcas pelos muros. Ele não é tão conhecido onde mora. "Você vai direto e pergunta ali naquele bar que eles sabem te informar melhor". Segui as pistas, sentindo que estava cada vez mais próximo. Notei que meu coração estava acelerado um pouco além do normal para um fim de tarde de sábado ensolarado. Identifiquei um centro social que ele havia dado como ponto de referência. Estava chegando a hora. "Antes de passar o segundo quebra-molas, à direita, tem um beco. Ele mora ali".

Assim fui informado no bar, cujas paredes estavam decoradas com muitas poesias. Chegaria atrasado para o nosso encontro, com certeza. Pelo menos podia me desculpar, dizendo que perdi um longo tempo tentando encontrá-lo. Não tive coragem de ligar e dizer que eu estava perdido. Entrei no beco e logo perguntei a uma garota se ela o conhecia. Caminhei, tenso, na direção indicada. Sentado numa janela mal acabada, barba mal conservada, estava um senhor, aparentando 50 anos. Hesitei em lhe falar e segui, lentamente, sem rumo. Voltei. Não era ele. "Ele mora ali, naquela última casa".

Foi assim que conheci Péricles Bonfim de Santana, conhecido como Perinho Santana, o poeta que escreve seus pensamentos nos muros sujos e que ganham vida pelas ruas de Plataforma, bairro popular da grande cidade de São Salvador.

Quarenta e seis anos, olhar cabisbaixo e cansado. Perinho escreve poesias nos muros do bairro onde mora desde 1999. Ele tinha uma lanchonete e precisava mudar os preços expostos na parede todos os meses. Resolveu ir além dos números e começou a escrever seus pensamentos e sentimentos. "Eu pegava e fazia umas poesias e mandava as pessoas fazerem os desenhos; na época, eu não sabia nem pintar".

Suas poesias falam de coisas que existiam no passado, de seus amigos, das pessoas que moravam no bairro, da localização e da importância de Plataforma para a Independência da Bahia, de ecologia... "Eu procuro contar uma história verdadeira que eu próprio posso explicar a uma pessoa que venha a mim", esclarece.
Perinho é um homem simples, muito simples. Vive numa pequena casa de três cômodos, no final de um beco, localizado numa rua que ele parece ter escolhido a dedo: Rua Rosa dos Reis. Tem uma sala que serve de cozinha e um quarto que também serve de sala. Nas paredes, uma mistura de cores e palavras dá vida ao ambiente, todo decorado com poesias e pinturas dele.

Ele sabe, como ninguém, viajar nas ideias. Roda o mundo em minutos e sempre aterrissa na religião. Nasceu no dia 24 de dezembro, cinco minutos antes de Cristo. Mas é ateu e tem pavor ao cristianismo. "Hoje, se eu fosse buscar uma religião, era para procurar o calor humano, as pessoas que não bebem, não fumam... O bar é a igreja dos católicos".
Perinho tem profunda mágoa e decepção dos tempos em que frequentava a igreja católica. As milhões de dúvidas que rondam sua cabeça, segundo ele, deveriam ser explicadas pelos ortodoxos. "Desde menino que as pessoas falavam assim: 'as palavras de Deus', e eu dizia: Ah, se eu não conheço as letras de Deus, como vou conhecer as palavras de Deus?"
Essa dúvida fundamentaliza uma de suas principais teses. Perinho acredita que a letra "D" foi santificada e que as demais foram amaldiçoadas. É como se a humanidade trabalhasse apenas com essa letra: Deus, dinheiro, dívida, débito, dor, desastre. Ele também acha que o nome de Deus deveria ser ALA, sem a letra "H". Por quê? Segundo ele, dentro da letra "L" há uma letra "A". "Veja as palavras que estão debaixo da letra A: alegria, amor, anjo, altura..." E continua: "A=1; L=11, logo, precisou-se de apenas um número para formar o nome de Deus", conclui.

Perinho Santana não tem mais que 1,65m, ostentado num corpo aparentemente magro e frágil. Tem uma voz calma e, apesar de acreditar que quem pensa em Deus pensa em eternidade, coisa que ele não quer, acredita no Homem. "Deus é uma pessoa única, que só cria coisas únicas, que não tem filhos e que não aparece para nós". Perinho tem um filho de vinte anos. Já fez um livro nas paredes de Plataforma: 314 páginas. Sente não ter registrado em papel todas as poesias escritas, pois muitas delas já foram apagadas ou pinchadas dos muros.

Infância, presente e futuro - Pergunto-lhe se o Perinho criança era um aluno exemplar, bom em português, e ele, sem pestanejar. "Eu, como estudante, era bastante inteligente. Eu já lhe digo isso porque não é pela inteligência em si, é pelo esforço que eu fazia para estudar. Eu era bem mais destacado em química e matemática. Eu me formei em química, na verdade. O português eu não era muito chegado, não. Eu tinha um professor, Afonso, e era aquele cara que trabalhava mais na base do exercício, depois corrigia. Eu tive uma professora na sexta série, de português, que eu gostei muito, ela me desenvolveu muito com advérbios, com verbos, e aí minha linguagem ficou extensiva", lembra.

Perinho, além de não se identificar muito com o português, nunca leu clássicos da literatura brasileira ou estrangeira. Apenas agora tem lido alguns de filosofia, área em que pretende se aprofundar. "O último livro que eu li foi O Mundo de Sofia", acrescenta, mas sem o orgulho de ter lido um dos maiores clássicos da literatura.
A razão para ele nunca ter lido, além de não ser chegado em leitura, era porque não queria que nada o influenciasse, pois tudo tinha que vir de sua cabeça. Essa também é a razão pela qual ele nunca escreve sobre o que as pessoas pedem ou falam. E não é que tem rendido? Assobiando Pelos Caminhos de Plataforma. Esse é o nome do livro de poesias que está montando, por enquanto, em seu caderno de anotações para depois, quem sabe, ser publicado.

Perinho Santana, ao contrário de muitos poetas e artistas que buscam um local específico para a inspiração, não tem frescuras. "Às vezes eu estou na rua e vem aquela frase e eu fico doido pra saber qual é o texto; então, quando eu chego em casa, vou escrever". Além de poeta, Perinho é pintor. E não gosta de tinta. Quando acaba um desenho, vai para casa correndo, sem olhar para trás, para lavar as mãos e tomar um banho; depois volta ao local do desenho e fica olhando, como se fosse alguma pessoa que estivesse simplesmente passando e resolveu admirar.

O poeta dos muros é um homem de muitas teses. Só concluiu o segundo grau, mas é um rapazinho de idade muito prendado. "Olhe, não se perca, não, porque eu sei é de coisa", aconselha-me com um sorriso longo, triste e cansado, logo após concluir uma de suas palestras, na qual defendia que o homem aprendeu a falar a partir dos animais, "miau", "au, au" e depois foi se lapidando.

As pinturas que Perinho faz para ilustrar suas poesias sempre envolvem a natureza. Algumas constituem verdadeiras obras abstratas. Alguns de seus trabalhos falam de Deus, apesar de tudo. E não terminam suas teses, suas teorias sobre a vida do criador. "Você ouve todo mundo falar: antes de Cristo e depois de Cristo. Cadê o meio de Cristo? Como é que pula do A pro D? Cadê o MC?"

Perinho mora sozinho há muitos anos e é divorciado. Teve uma depressão neurótica quando trabalhava com computadores. Pretende, em breve, mudar-se para o bairro do Bonfim, para morar com a mãe. Apesar de todo o talento, não pretende ganhar dinheiro com o seu trabalho. Não gosta de escrever por obrigação, diz.
Certa vez, conta, ficou de fazer um trabalho para a Caixa Econômica, mas que não ficaria com o dinheiro. "Eu investia tudo em tinta", disse.

Perinho é um ser humano, humilde. Muito receptivo e educado com quem se achega ao seu simples lar. Mostrou-me uma frase no banheiro que, ironicamente, agradece a visita ao local. Fui apresentado a toda a sua residência, num processo que não demorou muito. As poucas paredes que existem são repletas de poesias e pinturas. É como estar dentro de um livro multicolorido.

Perinho Santana, o poeta da natureza, da vida, da saudade de seus amigos, dos heróis que Plataforma já teve, escreve para os mais jovens, como faz questão de sempre dizer. O poeta dos muros ia até ganhar uma praça com seu nome, mas acabou ficando no nome de um senhor que havia falecido, a pedido do próprio Perinho. Pergunto-lhe sobre o reconhecimento de seu trabalho e ele cita uma placa de mérito cultural que ganhou. Ele não liga muito para essas coisas, pensei, e logo confirmei. "Eu escrevo para contar para os mais jovens tudo que eu vi", reforça.
"É tão bom você pegar uma parede toda suja, trabalhar e trabalhar... depois as pessoas passam e vêem uma frase...", orgulha-se.

Confesso que não pude fugir do clichê. - "Quem é Perinho Santana?"
"É uma pessoa humilde, que mora em Plataforma, o mesmo de sempre, que é parabenizado por uns pelo trabalho que faz e por outros é tratado como doido". Encerrei a gravação. O coração antes acelerado pela ansiedade do encontro agora cedia lugar a uma admiração gostosa. Suas palavras contavam muito mais do que a história de um homem-artista.

Senti que ele era muito frágil quando apertei sua mão. Eu tinha de ir. Ele, gentilmente, acompanhou-me até a saída. O céu estava escuro. "Vai chover", arrisquei, sem querer ir embora. Mas ele estava preocupado comigo. Apertamos novamente as mãos e ele me agradeceu, antes mesmo que eu o fizesse. Segui. Foi assim que conheci Péricles Bonfim de Santana, um poeta que escolheu os muros das ruas como páginas de seus livros.

"Na minha terra tem palmeira
Onde o trem passa por lá
De frente para a Ribeira
Havendo divisa com o mar".
Perinho Santana

Perfil produzido em 2008 para um trabalho da faculdade

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A fé que remove montanhas é a mesma que arrecada moedas?

Ainda meio sonolento, acordei com o barulho da sua voz. Ele falava da época em que entrava nos ônibus para assaltar, para matar, pegar as coisas das pessoas. Suas palavras oscilavam entre coisas boas e ruins. Foi assim a maior parte de minha viagem, num desses dias quase monótonos de ida para o trabalho. Quando acordei (detesto que interrompam meu sono, mesmo que no ônibus), ele já pregava o evangelho segundo... Segundo ele mesmo, na maioria das vezes!

Na medida em que ele ia explicando sua história passada, marcada por delitos, evocava o nome de Deus e intimava as pessoas a concordarem com as palavras bíblicas, narradas com um português ainda depreciado pela vida mundana. As pessoas, meio perplexas, não sabiam muito o que fazer. “Levanta as mãos aqueles que acham que Deus merece”, dizia ele, entoando a voz. “Levanta as mãos pessoal”, insistia, já praticamente gritando, ao perceber a falta de atenção das pessoas. “Tem homem aqui que levanta as mãos até pra bater na mulher em casa, mas não levanta para bater palma para Deus”, apelava.

Ele não desistia. “Quando eu entrava nos ônibus pra assaltar e mandava alguém levantar o braço, aí num instante todo mundo levantava. Hoje eu peço pra levantar o braço pra Deus e ninguém levanta!” Ele se aproximava de algumas pessoas e se dirigia diretamente a elas: “Levanta a mão. Bate palma. Bate palma quem acha que Deus merece!” Uma jovem que estava ao meu lado já levantava suas mãos e batia palma. Na frente, outra. Muitas pessoas (mulheres) já batiam palmas e respondiam, quando indagadas, “Amém!”, num coral triste.

Quando eu olhava ao redor, no rosto das pessoas, sentia que elas carregavam uma aflição típica do medo. Notei que elas não sabiam exatamente por que batiam palmas e levantavam suas mãos. “Eu vou encerrar...” Tranquilizei-me, mas só por uns segundos. Ele voltava a falar e contar detalhes da sua vida, dos crimes cometidos, de sua vivência na penitenciária atualmente, que retornaria para lá no final da tarde e que os outros presos sempre lhe pede para levar alguma coisa, uma pasta de dente (creme dental), um biscoito... “Eu vou encerrar, mas antes...” E voltava a contar como assaltava os celulares das pessoas, ironizava com alguém que aparentemente estava dormindo e não prestava atenção ao seu culto. “Quando eu entrava e alguém tava dormindo, eu ia assaltando e quando a tia acordava e dizia ‘o que é isso? ’, eu respondia: isso é um assalto tia e eu tava esperando a senhora acordar pra pegar seu celular”. Algumas pessoas se entreolhavam; outras riam cautelosamente.

Eu anotava, pacientemente, cada palavra, em inglês, para evitar que a fiel ao meu lado pudesse me entregar. Não era bem medo, mas eu estava meio assustado, surpreso com a situação. Cheguei a vacilar sobre meu direito de escolha, ao me constranger por não estar levantando os braços, muito menos aplaudindo fosse lá o que for.

Ele, para não perder a prática, começou a pedir dinheiro, mas dessa vez sem arma. Melhor dizendo, pedia ajuda para levar para os demais detentos, usando como “arma” apenas as palavras. Uma ou duas pessoas deram algumas moedas. “É verdade. Antes eu entrava, apontava uma arma e todo mundo logo me dava o dinheiro”. Naquele momento, pensei ser prudente eu pegar minha carteira e entregar algum dinheiro. Hesitei. “A Bíblia diz não à violência e sim ao amor”. Aumentaram as doações. “O Senhor é meu pastor e nada me faltará, amém?”, perguntou. “Amém, gente?", gritou. “Amém”, respondeu, prontamente, o coral.

Ainda não era tudo. Meu sono já havia ido embora, totalmente, o que é difícil de acontecer. Eu já havia guardado meu bloco de anotações, certo de que as arrecadações em nome de Deus para ajudar os irmãos da cadeia eram o suficiente e o último capítulo da história. “Para finalizar...”, repetia, sem mudar uma só palavra. “Você vai tocar no ombro do irmão que está do seu lado...” Eu, na hora, exclamei uma só palavra, para mim mesmo, mas que, infelizmente, terei que aqui censurá-la. Não acreditei na cena. “Espero que essa menina não toque em mim”, pensei. Em vão! Quando ele terminou de proferir a mensagem a ser passada através do toque, ela já estava ultrapassando o espaço que me é de direito do meu assento, colocando sua mão sobre meu ombro. Não consigo pensar numa só palavra para descrever a cena, tamanha a unicidade do ato, para não dizer outra coisa. Mantive os olhos nas minhas anotações e consenti despretensiosamente com alguma coisa que ela me disse, para não ser de todo grosseiro. Talvez ela não tivesse escolha naquele momento. Ele, finalmente, desceu e desapareceu. Fiquei com a impressão de ter acabado de passar por um assalto, à mão armada.

Eu acredito em Deus, mas o caminho, definitivamente, não é esse!

terça-feira, 27 de abril de 2010

MST, Vale-Gás, Bolsa Família e a Falta de Conhecimento

Acabei de achegar no trabalho, atrasado, mas precisava escrever, desabafar.
Há mais ou menos oito dias cerca de 5 mil militantes do MST- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – estão marchando de Feira de Santana para Salvador, 112 km. O objetivo é lembrar o massacre de 19 trabalhadores em Eldorado de Carajás (PA), ocorrido em 1996, e também para entregar ao INCRA e a Secretaria de Agricultura da Bahia suas reivindicações.

Pois bem, desde ontem, 26/04, pego alguns engarrafamentos na capital baiana com a chegada dos militantes. Nenhuma novidade, apenas algumas queixas banais dos passageiros, a cidade já anda um caos, parada. Hoje, no entanto, no ônibus, sentei-me à frente de uma jovem mulher, que me obrigou a sentar imediatamente diante desse computador e compartilhar com vocês, leitores, esse desabafo.

Ela, ao passar pela marcha do MST, começou a resmungar, chamando os militantes de “vagabundos”, “sem quifazer” e o mais que ela lembrou no momento. Fiquei decepcionado, porque eu esperava que ela fosse, no mínimo, capaz de fazer uma análise mais coerente, que justificasse, se não toda a sua opinião, os verbetes negativos. Nada! As coisas pioraram. Ela, do nada, começou a falar de Vale-Gás, Bolsa Família, Lula, Dilma, dizendo que estes programas só serviram para acomodar o povo... etc e tal! Ouvir aquilo foi o mesmo que estar assistindo ao Jornal Nacional e tantos outros programas que visam distorcer qualquer tentativa de ação positiva do governo para as classes mais carentes. Eu sabia que naquele momento eu tinha o dever de, nos minutos que me restavam para chegar ao meu ponto, tentar esclarecê-la, mostrar-lhe que o seu julgamento estava equivocado. Fui fraco. Calei-me diante do seu convicto desconhecimento. Preferi acreditar que ela nunca passou fome, nunca precisou de um metro quadrado de terra para plantar a única esperança de comer e não fazia ideia do que era pedir o botijão de gás do vizinho emprestado para terminar de cozinhar o feijão.

Desci triste do ônibus. Triste por ter ficado calado, triste por não entender por que as pessoas não procuram se informar, sair da posição de comentarista superficial, entender que há problemas sociais e que todos nós temos nossa parcela de culpa. Aquela mulher, visivelmente, não sabia o que significa a Reforma Agrária e não sabe quantas pessoas ainda passam fome no país. Ela certamente nunca visitou um assentamento na sua vida, desconhece os diversos projetos de agricultura familiar e ignora o trabalho do Movimento e a produção de alimentos que este é responsável. E o que é pior; ou melhor, deve estar se alimentando diariamente com produtos provenientes dos assentamentos.

Gostaria tanto que ela doasse só uma daquelas dóceis palavras direcionadas ao MST para os empresários da cidade onde ela mora, para os donos das empresas de ônibus, para a prefeitura, pois são estes que todos os dias a faz esperar, horas, calada, por um transporte ineficiente, caótico. Todos os dias, repito. E a marcha do MST é uma vez por ano!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Antes um bar, hoje uma igreja

Chega a ser curioso, digno de estudo, a quantidade de igrejas que tem surgido nos bairros de Salvador e também em outros municípios fora da capital.
Também chama a atenção a variedade de nomes, de doutrinas, crenças, sabe lá o quê! Alguns nomes não me arrisco a falar, nem tampouco escrever. O todo poderoso Google não deve nem reconhecer.
O fato mais curioso é onde estas igrejas estão sendo instaladas, em sua maioria: bares.
Aqui no bairro perde-se a conta. Só na rua onde moro são três... Minto, quatro! Deus está presente, isso me conforta! A humanidade deve estar mais pacífica, mais solidária.
Onde menos se espera, eis que ela surge, ainda que num simples espaço de dois metros quadrados e paredes de taipa, dois ou três fiéis. Em contrapartida, há os castelos, templos, para aqueles que não abrem mão do conforto na hora de tentar falar com Ele.

O fato é que quem procura e quer aceitar Jesus, lugar não falta! Agora vá com fé, porque “negociar” o perdão pode não ser tão fácil quanto pedir uma cerveja no balcão.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Imperdível: Mino Carta faz palestra em Salvador


Como coordenador do Grupo de Estudos de Comunicação e Política da Universidade Federal da Bahia, o professor, escritor e jornalista Emiliano José convida para a palestra do diretor de redação da revista Carta Capital, jornalista Mino Carta, na próxima sexta-feira (dia 16), às 19h, na Faculdade de Direito da UFBA, na Graça. A entrada é franca.

A palestra faz parte da série de seminários "A Política e a Vida na Esquina do Mundo". Além de Mino Carta, estão convidados os cientistas políticos Giuseppe Cocco UFRJ), já agendado para 26/05, Juarez Guimarães (UFMG) e a filósofa Marilena Chaui USP), ambos com datas em negociação.

domingo, 4 de abril de 2010

Por que David Andrade é um exemplo para todos os brasileiros?

Ele poderia usar como desculpa para desistir da luta uma série de fatores: seca, dificuldade no acesso à educação, problemas financeiros, falta de oportunidade de trabalho e até mesmo de apoio, dentre tantas outros. Mas optou por enfrentar todos estes obstáculos e fazer da região onde mora um lugar mais habitável, mais digno para a população.

Davi Andrade Santos, mais conhecido como David Andrade, é um jovem de 26 anos, morador do povoado do Cajueiro, cidade de Tucano, distante 256 km de Salvador. Agricultor familiar, desde a infância trabalhou na roça com os pais, Maria Andrade e João Ferreira, para ajudar no sustento da família. Preocupado com as condições de sobrevivência dos moradores do semiárido baiano, região que é caracterizada por longas secas e períodos de chuva escassos, iniciou sua militância nos movimentos sociais no Coletivo Municipal de Jovens de Tucano, organizando a juventude local para buscar melhores condições de vida. O trabalho envolvia, além de outras ações, mobilização política, conhecimento da realidade local do município, desenvolvimento rural sustentável, agronegócio e cooperativismo, participação da sociedade na criação de políticas públicas e educomunicação.

Alguns anos depois, assumiu a presidência da Associação Comunitária Clube 4-S Cajueiro, reconhecida como a associação mais antiga do município, realizando uma das melhores gestões da entidade. Depois da associação, David assumiu a presidência do Conselho de Desenvolvimento Municipal de Tucano (antigo FUMAC) e no cargo realizou grandes ações, dentre as quais se destaca a elaboração e aprovação de projetos que proporcionaram mais desenvolvimento e melhor condição de vida para as comunidades rurais.

David é uma dessas pessoas que bastam apenas alguns segundos ao seu lado para a vontade de mudar o mundo surgir com toda força. Livre de utopias, ele bota a mão na massa, literalmente. Conhece cada povoado, cada comunidade do município onde reside e para os quais presta vários tipos de assistência (gratuita), principalmente para os agricultores familiares, além de atuar na mobilização de outros municípios, ministrando atividades e capacitando tecnologicamente aqueles que utilizam a terra para o plantio de sobrevivência.

Desde que o poder de dissociação do capitalismo adentrou todas as esferas sociais, as comunidades mais longícuas e inacessíveis, plantando o individualismo e a ganância, voltar-se para o social e trabalhar por um bem comum tem se tornado uma prática cada vez mais em extinção. David, movido por um ideal humanitário, esquivando-se das garras afiadas do capitalismo nocivo, é um exemplo para todos os brasileiros que acreditam e lutam por um país melhor, que não permitem que as coisas materiais se sobressaiam diante da vontade de ver uma nação unida, com um sorriso de liberdade estampado no rosto.

Ciente da importância política na articulação do semiárido, em 2008 candidatou-se a vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT), não alcançando número suficiente de votos. Para quem pensou que ele desistiria, com uma possível decepção, enganou-se. Ele sabe que o amadurecimento político por parte dos eleitores vem com o tempo, principalmente na Bahia, onde durante muito tempo a política foi de exclusão e centralizava as ações apenas na capital; o interior era o mercado de compra e venda de votos. Hoje, ainda mais experiente, David tem viajado Bahia afora, fortalecendo parcerias, ampliando os conhecimentos e a rede de contatos com outros atores sociais, além de compartilhar experiências com outros modelos vitoriosos de desenvolvimento regional sustentável e contextualizado em outros estados.

Em 2009 iniciou o curso superior de Serviço Social, área em que já acumula vasta experiência, conquistada na luta diária com os movimentos sociais e na qual pretende continuar buscando novas possibilidades de desenvolvimento para o homem do campo, para a juventude tucanense e para os demais municípios do semiárido baiano.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Assalto?

Tem algumas coisas que você nunca imagina que vão acontecer com você. Quando menos se espera, você pode está diante de uma delas.

Foi assim que aconteceu na madrugada do dia 29 de março, por volta das 2h30. Eu voltava da cidade de Tucano (BA) para Salvador, quando o ônibus foi abordado por cinco elementos, já dentro da cidade de Feira de Santana. Todos os 14 passageiros dormiam, inclusive eu, que acordei, imagino, com o balanço do ônibus provocado pela estrada de chão irregular. Estávamos fora da BR 116, de onde a quadrilha obrigou o motorista a sair, depois de tomar o veículo quando este reduziu a marcha para passar sobre a lombada.

A primeira imagem que vi e as cenas que se seguiram permanecerão por muito tempo na memória, até porque, infelizmente, a possibilidade de acontecer novamente existe. Eram quatro homens e uma mulher, todos fortemente armados. Quando acordei e olhei na direção das primeiras poltronas, vi que o primeiro homem avançava na direção do fundo, portando uma arma que parecia uma espingarda calibre 12. Ele andava cautelosamente, passo a passo, com a arma sempre apontada para as poltronas. Atrás dele entravam mais dois, armados com grandes revólveres e gritando: “O dinheiro, passa o dinheiro”, sempre com um vocabulário estressado e intercalado com palavrões.

As pessoas iam acordando, entregando tudo que possuíam, ainda meio inertes, tentando entender o que, de fato, estava acontecendo. Entregamos celulares, relógios, sacolas... Tudo! Do lado de fora, escuridão. Poucas pessoas devem ter ousado olhar para fora. “Bora, passa tudo”, gritavam, sempre em movimento, eufóricos. Não deixavam nada.
Apesar do medo, eu conseguia pensar em muita coisa. É possível pensar em um monte de coisas quando se tem uma arma daquele tamanho na direção do seu peito. Para mim, por exemplo, foi inevitável pensar na educação do país, na falta de oportunidades, no individualismo, na desigualdade e exclusão social. Eles não tinham nada a perder. Fora daquele ônibus, onde eles tinham o poder, certamente não existia um trabalho decente, uma escola que lhes ensinassem alguma coisa que fizesse sentido para suas vidas, uma família que os acolhessem com amor e lhes mostrassem a diferença entre praticar o bem e o mal.

Em 2006, o IBGE apontou que cerca de 14 milhões de pessoas passam fome no Brasil, sem contar as cifras dos desempregados. Enquanto isso, tantos outros desfilam nas ruas com automóveis que não podem pertencer nem ao imaginário do trabalhador assalariado brasileiro. À primeira vista eu não consigo condenar quem me levou dinheiro, celular, roupas e outras coisas baratas. Claro que incomoda. Fazer alguma coisa forçada é sempre desconfortável. Mas até que eu encontre outra razão plausível que explique tais ações, só posso concluir que há uma ligação direta, causa e consequência, com outros problemas brasileiros. O país ainda não conseguiu sair da contra-mão. Ainda vivemos imersos na cultura da separação, da segregação do negro e do branco, do rico e do pobre. Somos um povo que aplaude a polícia quando ela enjaula um ladrão de ovos, de galinha, e ainda estamos perdendo nosso senso de lógica, a partir do momento em que estamos aceitando com normalidade falcatruas que envolvem políticos roubando milhões de reais do orçamento público. Repito: são milhões as pessoas que passam fome no país.

De tudo, restou-me a certeza de que é preciso aproveitar ao máximo cada minuto dessa vida, 10 reais esquecidos em um dos bolsos da calça, um cobertor e a lembrança de uma criança que esteve na cena dizendo: “Eu fiquei assustado”. O resto foi tudo para o BO.

Bahia promove III Conferência Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação


Durante os dias 15, 16 e 17 de março, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), promoveram uma ampla discussão no âmbito da ciência, da tecnologia e da inovação, com a participação da sociedade civil, empresariado, poder público e movimentos sociais. Durante o encontro, os participantes abordaram temas como educação, meio ambiente, desenvolvimento urbano e rural e o uso de tecnologias sociais.

Com o tema Desenvolvimento Sustentável da Bahia, os participantes puderam discutir o cenário nacional e estadual de políticas públicas voltadas à Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). No segundo dia de atividade, o debate esteve voltado à inserção da Bahia e do Brasil na nova geopolítica. Dentro do cenário baiano, o secretário do Planejamento do estado, Walter Pinheiro, destacou a importância das pesquisas em tecnologia para a implantação de projetos de governo e também sobre o acesso da população à banda larga, tema que atualmente está em evidência, resultado, inclusive, de propostas encaminhadas nos debates de comunicação em todo o Brasil. Na oportunidade, o secretário informou que as capitais do país têm até o dia 31 de dezembro para disponibilizarem banda larga gratuita para a população.

O uso das Tecnologias Sociais (TS) para o desenvolvimento social das comunidades alimentou o debate na parte da tarde. Uma preocupação geral da plenária dizia respeito à manutenção dos Centros Digitais de Cidadania (CDC) implantados na Bahia. Os espaços são inseridos nas comunidades, garantindo às pessoas que residem no local acesso gratuito à internet, mas depois não têm como serem mantidos, pois não dispõem de nenhuma verba privada ou governamental. Durante a concretização das atividades, foi encaminhada como proposta a criação e adoção de uma cota por parte do governo para ajudar no custeamento dos centros.

A educação na Bahia ganhou destaque na conferência, que contou com a participação do secretário estadual, Osvaldo Barreto. A professora Dora Leal (UFBA) trouxe um panorama da Bahia em comparação a outros estados do país, evidenciando, através de dados, a importância do fomento a novas pesquisas e também para a criação de novos cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado, como medidas para alavancar a posição baiana dentro do ranking nacional. Dora Leal também destacou a importância da criação de novos programas de pesquisa, como possibilidade de implementar ainda mais a produção científica brasileira, o que contribuiria significativamente para o desenvolvimento de novas tecnologias, evolução da ciência e aperfeiçoamento das ferramentas atualmente disponíveis a serviço da sociedade.

Os participantes aproveitaram a presença de especialistas e pesquisadores em diversas áreas da tecnologia, desenvolvimento urbano e ambiental, além da educação, e promoveram um espaço de debate acerca de questões polêmicas como desenvolvimento versus meio ambiente, tecnologia, democratização da comunicação e desenvolvimento social, dentre outras.

Como encaminhamento final da III Conferência Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, foram aprovadas as diversas propostas elaboradas pelos cinco grupos temáticos, as quais serão levadas à etapa regional e nacional da conferência. Dentre as proposições que mereceram destaque se encontra a inserção de conteúdo sobre as Tecnologias Sociais nas escolas como forma de garantir acesso educativo e de qualidade e a disponibilização gratuita de conhecimento produzido via financiamento público (projetos e editais, dentre outros).